“Diz-se que quando cheguei, a Câmara estava cheia de dinheiro, mas isso não é verdade”

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Segunda parte da entrevista ao presidente da Câmara de Lagoa, Francisco Martins, em que se fala na aposta do vinho como imagem de marca do concelho e dos custos dos muitos eventos que se realizam em Lagoa.

Algarve Marafado (AM) – Uma das primeiras medidas da sua equipa autárquica foi colocar o vinho como a grande imagem de marca promocional do concelho. A produção de vinho tem fortes tradições em Lagoa, mas, hoje em dia, é uma actividade com tão grande importância económica  que justifique isso?

Francisco Martins (FM) – O turismo é a nossa principal fonte de riqueza , sem dúvida nenhuma, mas não nos podemos cingir a essa actividade, temos que diversificar.

Nós usamos o vinho, por um lado, para promover esse produto específico e, por outro, para promover o nosso concelho. Fizemos uma aposta tão grande que no primeiro ano em que concorremos ao título de ‘Cidade do Vinho’, ganhámos. É uma aposta muito séria.

Também lhe posso dizer que, quando aqui chegámos, tínhamos três produtores, agora temos mais quatro em carteira. Se é rentável? Basta dizer que se estão a aparecer novos produtores é porque deve ser.

AM – A questão é saber se o forte investimento que a Câmara faz nesta vertente traz retorno para o concelho que justifique ter o vinho como bandeira e não outro produto ou actividade.

FM – Bom, para já, temos novos investidores. Eu tenho que gerir financeiramente a Câmara e economicamente o concelho. Portanto, tudo aquilo que eu possa trazer para Lagoa que diversifique a fonte de riqueza e que, ao mesmo tempo, promova o concelho, não promovendo só o sol e a praia… nós ganhamos com todos esses factores agrupados, essa é a visão que eu tenho e esta é a aposta que fizemos.

Nós estamos a vender aquilo que faz parte da nossa identidade. Se não é a melhor altura? Eu acho que é.. Durante muitos anos, Lagoa foi um grande produtor. Depois decaiu, em termos qualitativos, deixou de ser uma referência de qualidade e, actualmente, estamos na curva ascendente e a prova disso é a quantidade de prémios que temos recebido. Com a iniciativa ‘Lagoa, Cidade do Vinho’, por exemplo, temos trazido cá gente de todo o Continente e as ilhas e de muitos outros países. Há aqui uma rede muito grande de conhecimento, de trocas e de promoção que é importante explorar.

AM – Em termos de rentabilidade do investimento, foram consideradas outras opções? Tendo a Câmara uma boa situação financeira, não seria preferível, por exemplo, baixar ainda mais os impostos e taxas, fazer disso uma bandeira e tentar, por essa via, captar mais investidores para o concelho?

FM – Nós já baixámos duas vezes o IMI e abdicámos de parte da receita do IRS, o que nunca tinha acontecido. Temos, portanto, vindo a fazer um alívio da carga fiscal, em Lagoa, lá por se fazer uma coisa, não quer dizer que não se faça outra.

O ano passado, quando apresentámos o pacote fiscal, com baixa do IMI, com o abdicar de parte da receita do IRS, eu disse quanto é que aquilo representava em termos de perda para a Câmara e disse o que íamos fazer para compensar essa perda. Diminuímos na parte cultural e de promoção e diminuímos substancialmente os encargos com a banca, porque baixámos as dívidas. Diz-se que quando cheguei, a Câmara estava cheia de dinheiro, mas isso não é verdade. Estava sustentável, mas não estava cheia de dinheiro.

Ficámos com 4 salas de espectáculos para meia-dúzia de pessoas

AM – Lagoa é um concelho com muitos eventos. Não receia que aconteça com esta autarquia o que aconteceu com outras, que também investiram forte nesta vertente e deram-se mal?

FM – A diferença que há é que os nossos eventos têm uma sustentabilidade financeira muito grande. O facto de termos muitos eventos não significa que o valor que se gasta em cada um seja elevado. Por exemplo, o evento Black and White enche Carvoeiro, temos quase 30 mil pessoas naquela noite e o investimento não chega aos 20 mil euros. Posso também falar do Mercado de Culturas à Luz das Velas, em que tivemos cerca de 40 mil visitantes numa altura ‘morta’ e o custo nem chegou a 30 mil euros.

Estamos a falar em situações completamente distintas. Diz, e com toda a razão, que houve quem enveredasse por eventos, em que muitas vezes, só o cachê do artista passava dos 100 mil euros. Não é o nosso caso.

AM – Mas há eventos que, de certeza absoluta, dão prejuízo. Quando vem um artista de topo ao auditório, têm prejuízo, as receitas não chegam para cobrir o cachê.

FM – As autarquias, na parte dos eventos, não têm possibilidade de ter esse retorno financeiro. Um auditório com 300 lugares ou não faz actividade nenhuma ou leva lá alguém a tocar um instrumento, que, praticamente, não cobra cachê. Se cobra cachê, eu só conseguiria cobri-lo se colocasse os bilhetes a 300 ou 400 euros, o que faria com que não se vendesse nenhum.

AM – Portanto, foi um erro ter-se construído, não só em Lagoa, mas um pouco por todo o país, auditórios e espaços culturais desse género em vez de se fazer equipamentos que tivessem condições para serem minimamente sustentáveis?

FM – Quando planeamos, temos de saber que vamos gastar ‘X’ num equipamento e que, depois, para ele funcionar, precisa de outro ‘X’, temos que fazer bem as contas. Nós vimos que, de um momento para o outro, dois concelhos vizinhos [Portimão e Lagoa] que, praticamente, não tinham nada, ficaram com quatro auditórios: o Portimão Arena, o Teatro de Portimão, o Pavilhão do Arade e o Auditório de Lagoa. De um dia para o outro, ficámos com quatro salas de espectáculos para, como se costuma dizer, meia dúzia de pessoas.

E aqui entramos noutro território: devemos pensar o Algarve como um todo, infra-estruturá-lo com cabeça, tronco e membros e aí podemos poupar muito dinheiro.

No tempo das vacas gordas, todos queriam ter um auditório, todos queriam ter uma piscina, todos queriam ter tudo. Houve uma altura em que os municípios entraram em competição uns com outros, até ao nível dos eventos. Pensei que isso tinha acabado, mas parece que agora se está a voltar um bocadinho a essa ideia que nos deitou abaixo.

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