A estratégia turística de Monchique

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Segunda parte da entrevista ao presidente da Câmara de Monchique, Rui André, em que se fala de incêndios e da estratégia de desenvolvimento turística do concelho, com base da marca “O Topo do Algarve’.

Leia aqui a 1ª parte da entrevista e aqui a 3ª

AM – Com a experiência que, infelizmente, tem, ao nível dos incêndios, com que ideia ficou das circunstâncias que estiveram na base das desgraças que aconteceram este ano no país? Foram só condições meteorológicas adversas ou houve falhas gritantes em termos de prevenção e combate?

RA – Acho que para fazer um verdadeiro juízo do que aconteceu tem que se ter um conhecimento pormenorizado do que aconteceu, que não tenho. Mas, devido à experiência que, infelizmente, tenho, sei que a estratégia que, a nível de combate a incêndios, mais resulta é um ataque inicial muito forte.

Nos municípios algarvios temos feito um esforço enorme para que os bombeiros estejam bem equipados com carros, material de protecção individual, rádios para que possam fazer esse ataque inicial musculado.

Também a estratégia do Centro Distrital de Operações de Socorro (CDOS) do Algarve de triangulação é muito feliz, porque dá a possibilidade de, assim que é recebida uma chamada de alerta, partirem para o local do incêndio mais de 30 operacionais.

A forma como no Algarve fazemos a primeira intervenção é uma mais-valia que não sei se está a ser utilizada no resto do país. De qualquer forma, acho que a melhor forma de evitar os incêndios é através da prevenção, fazendo com que eles não aconteçam e, neste aspecto, penso que temos ainda muito trabalho por fazer no país. Há a questão da prevenção estrutural, mas também é preciso trabalhar ao nível da sensibilização das populações, no sentido de adoptarem medidas de auto-protecção.

Em Monchique, temos feito um esforço muito grande no sentido de que esse aspecto venha, de ano para ano, a melhorar. Criámos um programa a que chamámos “Casas sem fogo”, que, neste momento, está implementado em toda a região do Algarve, e que prevê ajudar as pessoas no cumprimento das regras existentes, como sejam a obrigatoriedades das limparem o espaço de 50 metros junto às suas casas. Temos uma equipa multidisciplinar que vai à explicar-lhes como devem cumprir esta obrigação, porque muitas tinham dúvidas, pensavam que tinham de fazer uma espécie de campo de futebol à volta da casa e não é isso que se pretende.

Temos, também, uma estratégia para salvar animais em caso de incêndios, somos pioneiros nisso, a nível da Europa. Os nossos bombeiros têm máscaras de oxigénio para salvar todo o tipo de animais, desde o gato ao cavalo.

Há, portanto, condições para fazer uma primeira intervenção organizada, musculada e envolvendo todos os agentes da Protecção Civil. Mas precisamos de fazer mais. É preciso proceder à limpeza das faixas situadas à volta dos aglomerados populacionais urbanos e, por isso, irei intensificar os contactos com os proprietários desses terrenos para que procedam à limpeza e, caso não o façam, nós iremos fazer e apresentar-lhes, depois, as respectivas contas.

AM – No rescaldo dos grandes incêndios que ocorreram no país, o Governo anunciou, recentemente, novas medidas no sentido de evitar outras situações do género. Concorda com elas? 

RA – O Governo começa a ir um bocadinho no sentido do que venho dizendo há muitos anos. A reforma da floresta é urgente e não passa apenas por apetrechar os bombeiros e outros agentes de protecção civil de meios e condições, vai muito além.

Quando se fala em floresta, muitas pessoas pensam apenas no combate a incêndios, mas quando falo de floresta, falo de uma riqueza e variedade enormes de produtos e condições que levam a que a nossa estratégia de turismo e económica do concelho estejam quase a 100% dependentes dela. Logo, tenho que lhe dar grande importância e tenho que ter mais competências para ordenar melhor a floresta.

O que queremos fazer aqui é um pouco o que se deve fazer no país. Isso passa, por um lado, por perceber que a floresta pode ter duas vertentes. Por um lado,  há lugar para floresta de produção, para eucaliptos, o país precisa de produzir e exportar. Temos, em Monchique, condições para a produção de eucalipto, porque há zonas que se não for o eucalipto não se consegue ter aí nada.

Por outro lado, temos a outra floresta, a ambiental, multifuncional, de variedade de espécies, de onde se retira um conjunto de produtos que usamos na gastronomia: os cogumelos, o mel, onde se criam os animais, onde se desenvolve um conjunto de actividades que têm sido enriquecedoras para a diferenciação do concelho de Monchique em relação ao resto do Algarve, do turismo de natureza, de saúde e bem-estar. Há espaço para estas duas vertentes da floresta.

Há lugar para o eucalipto

AM – Portanto, não concorda com aquela ideia de que o mau da fita é o eucalipto e que se acabarmos com ele, acabamos com os incêndios?

RA – Não. Tem é que se perceber que não pode haver um excesso de eucaliptos nem se plantar eucaliptos próximo de aglomerados urbanos ou em zonas em que entrem em conflito com outros interesses.

AM – Em relação às medidas tomadas pelo Governo, parece ter algumas reticências em relação a um maior envolvimento dos militares nos incêndios. Entende que têm falta de formação e equipamento?

RA – Ainda não percebi muito bem qual é a estratégia do Governo nesse aspecto, até porque tenho ouvido declarações diferentes de governantes, inclusivamente do 1º ministro.

Desde que aqui estou que os militares do exército vêm todos os anos fazer patrulhamento na serra e, actualmente, sei que isso também já acontece noutros locais, mas fomos os primeiros, no país, a pensar nisso.

Para fazer vigilância, os militares são bons, é uma presença armada, que tem um efeito dissuasor forte. Também temos um protocolo com o Regimento de Engenharia de Tancos, para a reabilitação de estradas, de pontes e de aquedutos.

Mas, se for para fazer combate, fazem com que meios e que formação têm para isso? A única vez que vi militares no combate a incêndio militares foi no ano passado, em que apagavam fogos com as botas. Pouco depois, encontrei o Chefe de Estado do Exército num evento, em Beja, e disse-lhe que não tinha gostado de ver aquilo, acho que é uma falta de aproveitamento de um recurso que temos, que é o Exército Português, e até é uma falta de respeito para os militares colocá-los a fazer aquele trabalho sem terem meios para fazerem uma intervenção diferente, nem sequer máscaras de protecção individual.

Penso que o Exército está a ser sub-aproveitados e a Força Aérea também. Temos condições para os colocar a participar nestas guerras contra as chamas, mas têm que se preparar para isso. Os militares que andam a fazer vigilância devem ter capacidade de primeira intervenção.

Algarve Marafado (AM) – É por Monchique ter uma grande experiência de combate a incêndios que quer instalar aqui uma delegação da Associação Nacional de Bombeiros?

Rui André (RA) – Já a temos. A Escola Nacional de Bombeiros queria instalar no Algarve uma escola que tivesse duas valências: uma sobre incêndios florestais e outra de incêndios urbanos. Foi feito um acordo para instalarem em Vila Real de Sto. António a unidade de formação de incêndios urbanos e em Monchique a de incêndios florestais. Essas aulas estão a ser ministradas, tanto num concelho como no outro. No caso de Monchique têm utilizado instalações da Câmara e também o quartel dos Bombeiros.

O que pretendemos fazer, e julgo que temos, agora, a possibilidade de usar uma linha de financiamento no âmbito do programa Interreg para construir um Centro de Meios Aéreos e Protecção Civil, onde irei integrar, para além do helicóptero que está instalado em Monchique, salas de formação para a Escola de Bombeiros e instalar, também, os Grupos de Intervenção, Protecção e Socorro (GIPS) da GNR que operam em conjunto com o helicóptero, mas que queremos que, também no Inverno, passem a fazer trabalho em Monchique. Naquele espaço teremos, ainda, um centro de logística para dar resposta a uma situação de catástrofe (incêndios ou cheias) e onde possamos albergar pessoas desalojadas, bens e equipas que estejam aqui colocadas de militares ou bombeiros.

Acho que as medidas que o Governo propõe são muito centradas na questão do combate e tem que ir muito mais além. É importante criarem-se políticas de fixação de pessoas nos territórios, criar valor nos territórios, incentivar a produção primária, criar sinergias e circuitos curtos entre as áreas agrícolas e o comércio e a distribuição dos seus produtos.

Tenho, aqui em Monchique, estado a criar uma estratégia que me parece ser muito interessante, que tem a ver com a criação desses circuitos entre o produtor e a restauração. Não fizemos isto por ‘decreto ou despacho’. Chamei os produtores e as pessoas dos restaurantes e assumimos publicamente o compromisso da qualidade, uns comprometem-se a produzir e os outros a vender.

Os quatro produtos turísticos de Monchique

AM – Em determinadas alturas do ano quase parece haver mais turistas e população estrangeira em concelhos do interior como Monchique ou Aljezur do que propriamente nos do litoral. São concelhos que estão na moda e têm vindo a atrair cada vez mais turistas?

RA – Isso deve-se em parte ao trabalho que os empresários têm feito, ao nível do investimento nestes territórios, apercebendo-se de uma realidade que já não é a mesma de há alguns anos atrás e dos próprios municípios que têm ajudado e criado condições para que o Algarve não seja só o do sol e da praia, para que se consiga criar, cada vez mais, ao longo do ano, atractividade nestes territórios.

No caso de Monchique lançámos uma marca a que chamámos ‘O Topo do Algarve’ e criámos quatro produtos estratégicos muito fortes e para cada um deles uma agenda própria com acções concretas, com iniciativas e projectos.

Criámos o ‘Turismo de Natureza’, onde temos um conjunto variado de percursos pedestres, uma série de ofertas, desportos de aventura e de natureza, zonas de lazer. Criámos o ‘Turismo Gastronómico’ e fomos eleitos pelo Turismo de Portugal, no ano de 2016, “Terra de Culinária”, devido a esta estratégia de criar através da gastronomia um conceito de sustentabilidade do território.

Por exemplo, um dos projectos que temos é a aquisição de um Matadouro Móvel porque é importante que as pessoas tenham condições para criar os seus animais, que tenham os seus trabalhos, mas que criem nos seus terrenos cabras, vacas, porcos e outro tipo de animais e que os possam vender e que sejam eles, que tiveram o trabalho, e não os intermediários a ganhar com essas vendas. Os nosso produtores gastam muito dinheiro em viagens para matar os animais, o que torna viável este projecto do Matadouro Móvel.

Acho que é um projecto estratégico que vai permitir que as pessoas abatam os seus animais aqui, com ganhos, em termos económicos, de eficiência, mas também ao nível da qualidade, porque é diferente transportar o animal centenas de quilómetros para ser abatido do que fazê-lo aqui, é possível ter um outro acabamento e maior aproveitamento do animal. Este Matadouro Móvel vai ser utilizado não apenas no abate de animais para as fábricas de enchidos, mas também de produtores particulares.

AM – Como é que, na prática, isso vai funcionar?

RA – É um matadouro normal, mas que funciona num contentor que está instalado num camião que se desloca a vários sítios para se fazer o abate de animais.

Voltando aos produtos integrados na nossa estratégia de oferta turística, para além do ‘Turismo de Natureza’ e do ‘Turismo Gastronómico’, temos o ‘Turismo Cultural’ e o ‘Turismo de Saúde e Bem-Estar’.

Monchique passou a estar no mapa em termos culturais. Lembro-me de uma brincadeira que fiz quando estava na JSD, que era uma agenda cultural em branco, só tinha uma frase na última página, que era a seguinte: “não é um erro de impressão, é mesmo um erro de governação, que faz com que não se passe nada em Monchique”.

Neste momento temos, promovido pela Câmara, Juntas e instituições, um conjunto alargado de eventos ao longo do ano que fazem com que em Monchique esteja sempre a acontecer qualquer coisa. Nesta altura, por exemplo, integrado no projecto ‘Lavrar o Mar’, temos no concelho um conjunto de ofertas culturais que trazem a Monchique pessoas do país todo.

Por último, o ‘Turismo de Saúde e Bem-Estar’ tem sido, também, uma aposta estratégica, recuperando um passado que, já no tempo dos Romanos, fazia de Monchique um destino de Saúde, devido às suas águas ‘sagradas’. Hoje, Monchique ainda é muito procurado, a este nível, e isso faz com que se tenham instalado aqui muitos projectos de turismo rural, que acolhem pessoas que se deslocam ao concelho para fugir às grandes cidades, à poluição, em busca de saúde não só física, mas também espiritual. Quando cheguei tínhamos apenas uma unidade legalizada e agora temos 96.

AM – Apesar de todos esses projectos, há alguma oposição que diz que é um bom promotor de eventos, mas que as grandes realizações ficam para segundo plano. O que responde a críticas como estas?

RA – As respostas às oposições costumam ser dadas pelos eleitores e em três vezes que concorri à presidência da Câmara ganhei sempre com maioria absoluta. As realizações, como já disse, vão acontecendo, de acordo com o planificado e com as capacidades de execução.

Leia aqui a 1ª parte da entrevista e aqui a 3ª

(Entrevista conduzida por Guedes de Oliveira e Jorge Eusébio)

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