A demolição do São Cristóvão e da Adega Cooperativa

O São Cristóvão, situado noutros tempos mesmo à entrada de Lagos, era uma referência, primeiro da hospedaria e mais tarde da hotelaria, desta cidade debruçada sobre o mar.

Erguido a par e passo pelo saudoso Herman Baptista, começou por receber prioritariamente os motoristas que demandavam estas paragens. Mas com o turismo a crescer, o São Cristóvão começou a aumentar e a responder aos desafios da nova vaga. E assim, com o tempo a passar, esta hospedaria inicial vir-se-ia a transformar numa unidade hoteleira que dava as boas vindas a todos os que entravam por Lagos adentro.

A par de instalações condignas que oferecia a todos os que o procuravam para descansar e desfrutar a cidade e toda a sua envolvência, dispunha de condições para receber eventos  sociais, políticos e outros mais que o procuravam e, desta forma, entravam na história do São Cristóvão.

Neste particular, recordamo-nos de Amália Rodrigues que aí foi pernoitar depois de um concerto na antiga Praça do Infante. E, já nos seus aposentos, foi capaz de nos receber para deixar as suas impressões por essa passagem pela cidade das descobertas. O mesmo poderemos dizer de uma espécie de comício político da candidatura de Soares Carneiro à Presidência da República com a presença do próprio candidato.

Estas e muitas outras memórias fazem parte daquela unidade hoteleira. E dizemos que fazem parte porque o hotel foi abandonado e, depois de andar de mão em mão nas malhas da especulação imobiliária, acabou por se degradar e por dar uma imagem fortemente negativa a todo aquele espaço de Lagos.

E, mesmo nestes últimos anos, com o turismo a crescer e com Lagos a querer e a necessitar de dar uma imagem cativante a toda essa onda de turismo que demandava estas paragens, ali estava essa carcaça a delapidar a imagem do que fora o São Cristóvão e a adulterar toda a sua envolvência. Apesar de algumas vozes se levantarem contra essa degradação e contra a desfiguração da imagem que queríamos e deveríamos transmitir, nada se fazia e até parecia haver já submissão àquela situação.

E o impasse parecia que se prolongaria no tempo devido ao desencontro da autarquia com os diversos promotores que se sucederam no tempo. Enquanto estes se cingiam à simples rentabilidade económica e queriam transformar o espaço do São Cristóvão em área apenas de construção para habitação, a autarquia apostava em dar continuidade, naquele espaço, a uma unidade hoteleira moderna e funcional que respeitasse a memória e a tradição que o São Cristóvão construíra, ao longo de décadas, com luta e tenacidade naquele ponto da cidade.

Mas, mesmo com o turismo a crescer, os propósitos dos promotores teimavam em persistir. E como a crise do imobiliário entretanto se instalou, então, mesmo por parte dos promotores, tudo se adiou. E assim aquela mancha no panorama arquitectónico da cidade parecia ter continuidade sabe-se lá até quando. Mas como os ventos se começaram a alterar, acabou por se chegar a um consenso, em termos urbanísticos, para aquele espaço e para o das suas imediações: o de conjugar a parte hoteleira com a da habitação.

E no encalço do São Cristóvão também entrou em demolição um ícone das actividades económicas de outras eras, a Adega Cooperativa de Lagos. Ao longo de décadas, ali recebia, em época de vindimas, as uvas da região com particular incidência para as do concelho de Lagos, Aljezur e mesmo Vila do Bispo.

Era já uma antecipação do que, futuramente, viria dar lugar à Associação Intermunicipal das Terras do Infante. E das variadas castas que ali aportavam saía o afamado e diversificado vinho de Lagos. Ganhou fama pela sua qualidade e era uma mais valia para a economia de Lagos e concelhos limítrofes.

Mas como as actividades económicas ligadas ao campo começaram a definhar e como também não foi capaz de inovar, a Adega Cooperativa começou a perder a sua preponderância e a deixar de ter qualquer importância no tecido económico de Lagos. E, constantemente, a definhar, acabaria por ir parar às mãos de um promotor imobiliário. Agora, debaixo das mesmas máquinas que estão a demolir o São Cristóvão, acabou por desaparecer e por, a par da sua actividade económica e social, deixar para trás um período áureo ligado à actividade rural.

Em seu lugar e em redor vai nascer habitação. E no São Cristóvão, para não perder de todo a imagem que deixou, vão aparecer apartamentos turísticos. Aquela zona vai, assim, mudar de fisionomia e, esperamos nós, dar uma imagem bem mais atraente e cativante à cidade de Lagos.

Para trás fica um panorama deprimente de memórias que se esbatiam na degradação desses edifícios agora em demolição. Mas seria importante que, nas novas urbanizações, houvesse espaços a relembrar para a posteridade essas memórias, como a da Adega Cooperativa, que não se deverão apagar.

E com a pressão que as novas urbanizações, para aquela zona, vão trazer, é fundamental que novas vias se possam rasgar e que as existentes se possam alargar. Temos que pensar numa cidade que, sem perder as suas memórias e as suas raízes, saiba crescer sem se perverter. E o São Cristóvão e a Adega Cooperativa devem continuar, para memória futura, nas urbanizações que vão nascer em espaços que foram seus.

(Opinião, Guedes de Oliveira)

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