“As obras em cima das eleições só me causaram desgaste”

pub
pub
pub
pub

Primeira parte da entrevista ao presidente da Câmara de Lagoa, Francisco Martins, dedicada à vertente política, em que o autarca garante que, apesar de ter pedido uma “vitória esmagadora”, nunca esperou conseguir um resultado eleitoral tão expressivo como o que lhe foi dado pelos lagoenses nas últimas autárquicas. Na segunda parte da entrevista vamos falar do Orçamento e dos grandes projectos que vão ser desenvolvidos ao longo do mandato.

Leia aqui a 2ª parte da entrevista e aqui a 3ª

Algarve Marafado (AM) – O concelho de Lagoa esteve muitos anos nas mãos do PSD e em 2013 passou as do PS, que agora reforçou a maioria. Isso deveu-se mais aos protagonistas políticos ou a outras razões de fundo?

Francisco Martins (FM) – Nós trabalhámos com seriedade, em função do projecto que tínhamos apresentado aos lagoenses e o julgamento feito pela população foi positivo. Em qualquer eleição há sempre ‘n’ factores internos e externos. Falando só do meu concelho, já vi muitas eleições em contraciclo com a tendência nacional, outras em linha com ela. Os lagoenses é que decidem se estão satisfeitos, se querem continuar ou não, são soberanos na decisão e temos que respeitá-los.

AM – Nas últimas eleições, a vitória do PS foi retumbante. Isso deveu-se ao seu carisma, à oposição não ter apresentado os argumentos e protagonistas mais indicados ou por as pessoas estarem, a nível nacional, satisfeitas com o PS? 

FM – Como disse, em eleições há sempre vários factores que acabam por contribuir para o resultado final. Já houve, no passado, eleições em que o PSD continuava a ganhar em Lagoa, mesmo quando as pessoas estavam insatisfeitas com o Governo, por exemplo, no final da governação de Cavaco Silva. Tal como ao contrário: o país estar, em determinada altura, muito satisfeito com a governação de José Sócrates e em que o PS não conseguia ganhar em Lagoa. Esses são os factores externos ao concelho. Nestas eleições, é óbvio que o PS teve um resultado extraordinário, a nível nacional, e Lagoa também foi nessa onda.

Em termos de elementos internos, o nosso trabalho acho que foi completamente diferente daquele que vinha a ser feito, os protagonistas que se apresentaram, quer do PS, quer do PSD eram os mesmos, portanto, não havia qualquer incógnita, a esse nível. Os candidatos eram pessoas completamente diferentes, com modelos de governação completamente diferentes, duas maneiras de estar na vida e na política completamente diferentes e acho que esse foi o factor fundamental.

AM – Houve obras de vulto no anterior mandato que tenham também contribuído para uma vitória tão expressiva?

FM – Normalmente, associamos obras e investimento ao cimento e ao betão, mas eu falo em dinâmica. O investimento feito  no concelho, parte dele foi, realmente, em alcatrão e cimento, mas houve também uma estratégia de investimento no reforço da dinâmica do concelho.

E hoje temos muito mais visibilidade, este é um concelho que se afirma cada vez mais, já não é um mero dormitório do concelho limítrofe, tem uma identidade própria, tem uma força própria, um orgulho próprio e é assim que se constrói Lagoa e acho que esse foi o grande impulsionador da nossa actividade.

AM – Como é que convive com um vereador da oposição que já foi, ao longo de vários anos, presidente de Câmara?

FM – Temos uma relação de amizade e cordialidade, é uma pessoa séria, que deu muito de si, do seu conhecimento e entrega a Lagoa, merece esse reconhecimento e, ao longo dos 4 anos do mandato anterior e no início deste, temos tido uma relação muito cordial e séria, obviamente que com divergências políticas que são normais quando as pessoas estão em projectos diferentes, mas sempre na base do respeito e da interajuda. Não tenho nada a apontar-lhe, acho, inclusivamente, que, em determinadas alturas, até beneficiei dos conhecimentos que ele tem.

AM – Agora que tem uma maioria absoluta muito alargada, pode decidir como quer. Ainda assim, conta com os contributos da oposição ou não sente a necessidade de se dar a esse trabalho?

FM – Sinto-me com mais responsabilidade de ‘dar-me a esse trabalho’, usando a sua expressão. Na noite eleitoral disse que a ‘bebedeira’ da vitória acabava ali e que o resultado dava-nos uma responsabilidade muito maior.

A última coisa que quero é cair na arrogância do poder, mas, obviamente, não podemos esquecer o resultado que tivemos e a responsabilidade que nos foi dada, reflectida em 80% dos eleitos locais… mas temos mantido com a oposição o mesmo relacionamento que já vinha de trás, ainda recentemente reuni com todas as forças políticas para a elaboração do orçamento e quero continuar a contar com todos porque se concorreram às eleições é porque têm ideias para a nossa terra e vamos então discuti-las.

Ainda há dias dei o ‘pontapé-de-saída’ no processo do Museu e disse que ao longo deste ano vamos ter uma série de reuniões, contactos e trocas de ideias e sugestões para que aquele seja um projecto nosso, de Lagoa e dos lagoenses e não apenas do presidente de Câmara e da sua equipa.

Leia também: Os grandes eventos que vão decorrer no concelho de Lagoa

“O resultado superou em muito a ideia que eu tinha quando falava de uma maioria esmagadora”

AM – Ainda voltando aos resultados eleitorais, na apresentação da sua equipa disse que queria ter um resultado esmagador. Estava a contar com uma votação ao nível do que acabou por ter?

FM – Quando falei em maioria esmagadora tinha mais a ver com o facto de há 4 anos ter ganho por uma diferença pequena, de 200 ou 300 votos. A ideia não era tanto saber se conseguíamos 5 vereadores ou se ficávamos com 4 mas sim que a diferença de votos para o outro partido fosse muito mais expressiva.

Para ser sincero, conhecendo a sociologia de Lagoa, reflectida nos anteriores resultados eleitorais, nunca pensei que chegássemos a esta diferença de mais de 3 mil votos, mais do dobro do que o PSD teve. O resultado superou em muito a ideia que eu tinha quando falava de uma maioria esmagadora.

AM – Na altura, a oposição criticou muito o facto de fazer obras a poucos meses das eleições, dizia que se tratava de uma gestão eleitoralista. Acha que essas obras se reflectiram, de alguma forma, nos resultados?

FM – Você acompanhou a polémica que houve em relação à Rua do Mercado, a agora chamada Rua Vermelha e sabe que durante todo aquele tempo só apanhei ‘pancada’. Portanto, se me dizem que obras em cima das eleições é uma mais-valia, eu digo que isso é uma asneira. O ‘bombardeamento’ no Facebook que houve à volta daquela obra, aquilo só me criou desgaste…

AM – Mas não acha que recuperou depois, quando as obras acabaram e as pessoas viram o resultado?

FM – O que eu disse na altura e continuo a dizer é que tenho um enorme orgulho nos lagoenses porque souberam não se deixar ‘entupir’ pelos soundbites que algumas pessoas alimentavam na internet e pensar pelas suas próprias cabeças. Acho que o trabalho de 4 anos e a dinâmica e visibilidade que o concelho teve é que contribuíram para a vitória.

Quanto às obras, e como eu sempre afirmei, nós perdemos muito tempo a arranjar os projectos que, efectivamente, não existiam. Havia meia-dúzia de coisas soltas pelas quais tive de andar à procura, pois ao contrário do que o meu antecessor dizia, ele nunca reuniu comigo para me passar o testemunho.

Portanto tivemos que fazer tudo do início: Plano de Mobilidade, Plano Estratégico… nunca quisemos entrar pelo campo das obras avulsas e isso demorou o seu tempo e é um facto que muitas obras acabaram por cair em cima das eleições, mas continuo a dizer que a mim isso só me causou desgaste.

(Entrevista conduzida por Guedes de Oliveira e Jorge Eusébio)

  Leia também:

Francisco Martins espera que o ‘cemitério de carros’ seja relocalizado

Leitura dos contadores da água dos lagoenses vai ser automática

Os grandes eventos que vão decorrer no concelho de Lagoa

(Visited 807 times, 1 visits today)
pub
pub
ViladoBispo_Banner_Fev
pub
pub
pub

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *