“Nunca houve, não há e dificilmente haverá qualquer tipo de conflito com Sousa Cintra”

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Segunda parte da entrevista ao presidente da Câmara de Vila do Bispo, Adelino Soares, em que se fala de Sousa Cintra, das regras do Parque Natural e de algumas das principais obras que deverão ser concretizadas ao longo do mandato.

Leia aqui a 1ª parte da entrevista

Algarve Marafado (AM) – Sousa Cintra é um empresário de relevo do concelho, que o apoiou e ajudou a chegar à presidência da Câmara. Contudo, ultimamente, parece haver um certo virar de costas. A que se deve esse distanciamento?

Adelino Soares (AS) – Não há distanciamento nenhum. Como existe uma relação pessoal, também existe uma institucional, nem sempre as partes concordam com tudo, muito embora a minha perspectiva de governar seja que a melhor situação é a que satisfaz ambas as partes.

Quando isso não acontece, cada uma delas – seja da parte do senhor Sousa Cintra, seja da parte do município – manifesta esse descontentamento e defende o que considera serem os seus interesses. Agora, nunca houve, não há e dificilmente haverá qualquer tipo de conflito com Sousa Cintra.

AM – Ele está ligado à prospecção de petróleo, actividade que não é muito popular no Algarve. Isso não lhe poderá trazer a si alguns problemas de índole política?

AS – Não. Ele, como empresário, optou por um determinado investimento, ganhou essa concessão e deve lutar pelos seus interesses.

Do ponto de vista político do município e até da própria região do Algarve, somos oposição a esse tipo de exploração, até porque o mundo está muito mais virado para as energias verdes, é completamente despropositado, nesta altura, quando a aposta do Governo é ir no sentido da descarbonização, estar a fazer precisamente o contrário.

Agora, ele, evidentemente, lutará por aquilo que são os seus interesses e eu, como autarca, luto contra a prospecção e exploração de hidrocarbonetos porque acho que é prejudicial para a região e para o turismo.

AM – O Parque Natural da Costa Vicentina (PNCV) estava sempre no vocabulário do seu antecessor, que o via como como um travão ao desenvolvimento do concelho de Vila do Bispo. Para si, é uma mais-valia ou também acha que coloca em causa o desenvolvimento?

AS – O que acho é que há regras do Parque Natural que devem adaptar-se um bocadinho ao que são as necessidades da população. Pensa-se na fauna e na flora, pensa-se  no território e, muitas vezes, esquece-se o ser humano e não serve de nada ter um Parque Natural se ele não estiver, também, ao serviço do homem.

Nesta altura está a decorrer um processo de alteração ao Plano de Ordenamento, que vai passar para Plano Especial. Espero que isso seja aproveitado para eliminar erros e corrigir  algumas incongruências que existem.

AM – É seu objectivo preservar os valores ambientais e o actual modelo turístico e de desenvolvimento do concelho, que tem ido em sentido diferente da generalidade da região?

AS – Este é um concelho com características diferentes e o que é importante para nós é saber explorar essas diferenças e as nossas potencialidades ao máximo, a bem da população.

Hoje, o turismo de natureza é algo que acrescenta valor e, nesse âmbito, temos sabido explorar muito bem o território, salvaguardando, claro está, a sua natureza e todo o seu património cultural e natural, isso é importante e é essa estratégia que vamos continuar a desenvolver.

Investimento na ‘obra humana’

AM – Quais foram as obras mais importantes que ficaram dos mandatos anteriores?

AS – A grande obra, se calhar, é a obra humana. Temos apoiado muitas famílias com dificuldades económicas, a vários níveis, e ficamos satisfeitos por saber que estamos num território onde não existe pobreza, onde não existe fome, onde não existe ninguém que esteja a viver na rua, onde qualquer família que tenha dificuldades económicas pode ter o apoio do Município, essa é a maior obra.

Isso não nos impediu de fazermos algumas obras físicas. Posso fala, por exemplo, da construção de uma nova escola em Budens, pela importância que isso tem, ao nível da educação. Trata-se de um edifício escolar que esteve para fechar e hoje está completamente cheio.

Posso falar também, a outro nível, da construção da nova ETAR de Sagres e Vila do Bispo. Durante muitos anos não houve qualquer tipo de tratamento do saneamento básico ao nível do que é exigível e hoje temos esta infra-estrutura, que vem colocar o Município de Vila do Bispo na vanguarda daquilo que são os equipamentos básicos para as populações, preservando, ao mesmo tempo, os valores ambientais.

AM – Foi a aposta na dimensão humana que lhe deu uma vitória retumbante nas eleições?

AS – Acho que sim. Não só porque os apoios sociais que proporcionámos foram importantes para qualquer um dos cidadãos em causa, mas também porque a obra humana nem sempre é apenas direccionada para as pessoas mais necessitadas, do meu ponto de vista, ela também acontece quando, por exemplo, a autarquia consegue dar respostas em tempo útil que permitam aos empresários verem os seus problemas resolvidos rapidamente.

AM – Quais são as principais obras que vai desenvolver ao longo do mandato?

AS – Temos algumas intervenções na rede viária. Em Vila do Bispo está, neste momento, a decorrer uma empreitada de mais de meio milhão de euros na rede viária e com esta intervenção vamos deixar de ter arruamentos municipais na zona urbana sem estarem pavimentados, pelo menos, em Vila do Bispo, uma estratégia que iremos estender ao resto do concelho.

Temos a ecovia/ciclovia, que vai ser uma obra marcante ao nível do turismo de natureza e que vai ligar os quatro municípios da Costa Vicentina, e que tem cerca de 90% de financiamento comunitário.

Destaco ainda a sede do Clube Recreativo Infante de Sagres, uma colectividade que tem quase 80 anos, que desenvolve muita actividade e nunca teve um espaço.

Destaco, ainda, a obra dos Celeiros da História, acredito que vai ser a mais marcante das últimas décadas em Vila do Bispo.

AM – Como é que está esse processo?

AS – A obra física já começou, deverá estar concluída no prazo de um ano, em Janeiro de 2019, e depois vamos ter um período para equipar o interior. Estamos a falar de um equipamento estilo museu.

A obra foi consignada por perto de um milhão e meio de euros, vamos gastar mais 70 mil euros em projecto, poderemos gastar 200 ou 300 mil euros no interior, portanto, deverá ser uma obra que custará à volta de 2 milhões de euros.

AM – Uma vez concluído, que mais-valia fundamental acha que vai trazer para o concelho?

AS – Para já, vai ser diferente daquilo que é habitual daquilo que é o conceito de museu, de espaço expositivo. Aqui, a ideia é como se fosse um grande posto de turismo onde as pessoas podem tomar contacto com tudo aquilo que são as potencialidades do concelho, desde a geologia, passando pela palonteologia, à própria história dos Descobrimentos, à etnografia, tudo isso poderá ser visitado num único espaço e vai permitir que os visitantes possam, posteriormente, ir a diversos locais do concelho verificar no terreno, mais especificamente, cada uma das áreas que lhes interessa.

AM – Será, também, imagino eu, uma forma de trazer mais pessoas à sede da freguesia, uma vez que, como se sabe, a esmagadora maioria das pessoas que vem ao concelho é para visitar Sagres?

AS – Sim. Um turista que venha ao nosso concelho, sabendo deste equipamento, pode visitá-lo e ficar com a noção daquilo que são as realidades locais, mas aquele também será um espaço para ser visitado pela população local, que desconhece muito daquilo que são as nossas potencialidades, embora tenhamos feito um trabalho enorme em termos de divulgação.

Leia aqui a 1ª parte da entrevista

(Entrevista conduzida por Guedes de Oliveira e Jorge Eusébio)

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