O dia em que Freitas do Amaral teve de fugir de Portimão

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Nos últimos meses tivemos duas campanhas eleitorais que, como é normal de há muitos anos a esta parte, correram de forma pacata e tranquila. O único tipo de agressividade a que se assistiu foi a habitual retórica verbal dos candidatos e apoiantes mais acérrimos.

Mas nem sempre a vida política portuguesa correu de forma tão tolerante e pacífica. Toda a gente se lembra da famosa campanha eleitoral de 1986 em que Mário Soares, então candidato à presidência da República, foi agredido na Marinha Grande.

Contudo, a maior parte dos episódios de intolerância e agressividade ocorreram a seguir ao 25 de Abril, em especial, ao longo de 1974 e 1975. Na altura, era difícil a partidos como o PCP levar a cabo as suas iniciativas políticas em determinadas zonas (sobretudo no Norte), enquanto que os partidos ditos de direita também tinham vida muito difícil noutros pontos do país.

Um desses partidos era o CDS. Apesar do seu líder, Freitas do Amaral, insistir que era ‘centrista’, num ambiente político muito dominado pelas ideias de esquerda, o CDS era visto por muitos como um perigoso partido reaccionário de direita.

Isso levava a que, nos primeiros tempos, fosse tremendamente difícil aos seus dirigentes realizarem os seus comícios e acções políticas. A este nível nível, o episódio mais conhecido foi o cerco ao Palácio de Cristal, no Porto (Janeiro de 1975), onde decorria o seu primeiro Congresso.

Mas houve muitos mais casos, um dos quais em Portimão, relatado por Freitas do Amaral no seu livro de memórias políticas “O Antigo Regime e a Revolução”.

Estávamos em Agosto de 1974 e o CDS arrancava com os seus primeiros comícios no país. Um deles realizou-se no antigo Cinema de Portimão. A determinada altura, irromperam pelo corredor central “umas duas dúzias de jovens”, gritando com palavras de ordem como “Abaixo o fascismo! CDS é fascista! Fascismo nunca mais!”. A situação foi ficando cada vez mais tensa e explosiva e, em determinada altura, “fizeram menção de invadir o palco para nos agredir”, o que levou a que os oradores se vissem forçados a escapar pela porta dos artistas, uma vez que a principal estava bloqueada por mais manifestantes.

Na sua fuga, os dirigentes centristas acabaram por passar por outro cinema, este ao ar livre, situado do outro lado da rua. Conta Freitas do Amaral que estava a ser projectado um filme de cowboys e que “ao som dos tiros destes (felizmente só destes) e de uma assobiadela geral da assistência, justamente incomodadas com aquelas sombras todas que passavam a correr projectadas no écran, lá conseguimos sair por outra porta lateral”.

Mas o ‘filme de terror’ ainda não tinha acabado. Ao chegarem junto aos seus carros, verificaram que tinham os pneus todos furados. Entretanto, alguns dos manifestantes apareceram, pelo que tiveram de se enfiar mesmo num desses veículos, o qual “arrancou a toda a velocidade… que era pouca, por causa dos pneus furados” e, aos solavancos, lá seguiram só tendo parado em Vilamoura, na casa que um dirigente do CDS aí tinha.

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