Negociação com a pistola em cima do balcão

2ª parte de uma reportagem com João Vieira, que foi, até ao passado dia 11, presidente da Assembleia Municipal de Portimão. A 2ª parte está disponível aqui. Pode também ler este texto na edição em papel do Portimão Jornal ou online, aqui.

Apesar da maior parte da intervenção política de João Vieira ter tido a Assembleia Municipal por palco, a função de que guarda melhores recordações foi a de presidente da Junta de Freguesia da sua terra, Alvor, cargo que exerceu entre 1983 e 1989.

Eram tempos complicados, pois a autarquia não tinha verbas próprias para a realização de obras, tendo que ser a sua função a de andar continuamente a tentar convencer o presidente da Câmara e a sua vereação a levarem a cabo as intervenções que eram necessárias e que a população pedia.

Dessa altura, um dos episódios marcantes que recorda foi “a tentativa feita, no ano de 1983, de levarem daqui o nosso Salva-vidas”. A população foi mobilizada e, no dia em que isso era suposto acontecer, veio para a rua, impediu a retirada da embarcação e evitou, assim, “a perda de um elemento histórico da freguesia, que hoje está a ser recuperado e valorizado”.

Destaca, sobretudo, o papel que então tiveram as mulheres dos pescadores, que, para evitar represálias sobre eles, estiveram na primeira linha da contestação.

Outro dia marcante foi o de 11 de março de 1988, em que o Parlamento aprovou a proposta de que Alvor voltasse a ter o estatuto de vila, que lhe tinha sido retirado cerca de dois séculos antes.

Uma pistola em cima do balcão

A ligação de João Vieira à política e ao PS iniciou-se a seguir ao 25 de Abril de 1974 e, ao longo de algum tempo, desenvolveu-se a par da atividade de sindicalista.

Tal como muitas pessoas do concelho e da região, trabalhou em hotéis e acabou por se envolver na reivindicação por melhores condições para si e os seus colegas.

Foi dirigente do Sindicato da Hotelaria e Turismo, cuja sede regional um grupo de elementos do Barlavento quis instalar em Portimão. João Vieira recorda que “enchemos 4 ou 5 camionetas de pessoal e abalámos para uma sessão em Faro, onde fizemos a proposta, a qual não foi bem acolhida pela malta daquela zona, que ia correndo connosco”.

Enquanto sindicalista tinha como missão negociar com os patrões, quer para tentar melhorar as condições salariais dos trabalhadores, quer, simplesmente, para exigir que cumprissem o que estava acordado.

Um dos maiores sustos que apanhou foi numa situação em que foi falar com um empresário para tentar que pagasse os salários em atraso dos funcionários do seu restaurante, situado na baixa de Portimão. Chegou, entrou e o dono do estabelecimento, de imediato “colocou uma pistola em cima do balcão e perguntou-me o que estava ali a fazer”.

Passado o momento da surpresa inicial, por se deparar com uma técnica negocial bem pouco ortodoxa, lá conseguiu dizer ao que ia, o homem justificou os atrasos com a falta de dinheiro, “acabámos por chegar a um acordo e ele foi pagando aos poucos o que devia aos trabalhadores”.

Como se sabe, o pós-25 de Abril foi um período muito intenso, com as emoções à flor da pele e de grande agitação política. Em Portimão isso também aconteceu, mas “não tivemos situações extremas, houve um ou outro episódio mais complicado, situações que eram próprias da época, mas que não tiveram consequências graves”.

Uma das que ocorreram no Algarve e que podia ter sido explosiva foi a do assalto ao edifício do Governo Civil de Faro por parte de manifestantes, em outubro de 1975. Assim que a notícia chegou, João Vieira e muitos outros portimonenses deslocaram-se à capital do distrito para tentar impedir essa ocupação.

No momento da partida da vida política ativa, diz sentir-se “realizado”, apesar de nunca ter feito parte do executivo camarário ou de ter sido eleito para o Parlamento, o que alega ter acontecido por indisponibilidade própria, devido aos compromissos profissionais, pessoais e familiares que tinha.

Não pretende exercer mais funções políticas, mas sempre que haja eleições promete voltar a pegar na bandeira do PS e a ir de rua em rua, em busca de votos para o seu partido.

Leia aqui a 1ª parte da reportagem: As aventuras políticas de João Vieira

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