A demolição e consequente reconstrução das Torres da Torraltinha

Era uma chaga que se erguia no ar e que teimava em perdurar e atravessar sucessivos executivos. Com o seu esqueleto ao alto, ia desafiando verões e as demais estações que, ano após ano, deixavam as suas marcas.

E já lá vão cerca de cinquenta anos que se viram erguidas no ar e que, contra ventos e marés, teimavam em desafiar o tempo. E, assim, as torres Crotália, como tecnicamente eram conhecidas, lá se iam aguentando e desafiando todos quantos passavam por si. 

Foram muitos os anúncios da sua demolição e do nascimento de uma nova urbanização condizente com os pergaminhos de uma Costa d´Oiro que culmina no esplendor da Ponta da Piedade. Mas os anos iam passando e aquele esqueleto, como ferida na paisagem, lá se ia aguentando. E chegou até aos dias de hoje.

Agora, só se aguenta no ar, à espera de uma última demolição, uma réstia dessa construção que chegou até aos dias de hoje. E todos os que viam essa mancha erguida pelo ar fora, num dos espaços mais emblemáticos de Lagos, em termos paisagísticos e ambientais, começaram a respirar à espera de uma área preservada e enriquecida por uma nova urbanização que viesse suceder a esta demolição.

Mas apesar de tudo o que tem vindo a ser apregoado e difundido, aquela demolição vai dar lugar a uma construção em tudo semelhante ao que lá existia e que mexia com a sensibilidade de um ambiente e de uma paisagem que se querem preservados e valorizados pela ação e pela mão do homem. É o que nos diz toda a informação afixada nos taipais a difundir e a anunciar, em jeito de publicidade, o que de lá vai sair.   

Esqueletos no ar

E perante um quadro com este desenlace, é caso para se perguntar por que é que se esperou cerca de cinquenta anos para tudo se perpetuar e para se continuar a agredir e a ferir uma paisagem tão emblemática e com uma beleza como aquela.

Parece que estamos a regredir e a cometer os mesmos erros de há quarenta ou há cinquenta anos atrás. É comum dizer-se que nos tempos em que vivemos era impossível cometer-se erros como os que foram cometidos na praia da Rocha.

Mas o que estamos a ver nas torres da Torraltinha é do pior que já vimos, em décadas atrás, pelo Algarve adiante e que o mancharam e lhe roubaram a qualidade e a especificidade natural que esta região requer e pode oferecer. Não se compreende como é que, nos dias de hoje, num território de exceção, se permite a construção de dois edifícios de dez pisos a manchar e a roubar a beleza a uma zona como aquela.

Perante situações como esta, pergunta-se que eficácia tem os planos diretores municipais quando são desenhados e orientados em favor de casos pontuais em vez de obedecerem a uma ideia de cidade que tenha como fio condutor a sua identidade. O mundo da construção faz parte da nossa economia e deve ter a sua atividade e a sua vitalidade próprias. Mas não se pode hipotecar a identidade de uma cidade ao mundo da construção que dita as suas regras e a sua evolução. E Lagos é uma cidade que se está a abastardar porque a sua identidade não se está a preservar . 

Do espaço das Torres da Torraltinha poderia nascer uma urbanização que embelezasse a área e contribuísse para a sua valorização. Mas aquelas torres ao alto, como esqueletos no ar, são apenas substituídas por outras com cara lavada e outra fachada.

E com decisões como estas não obtemos qualquer valorização nem contribuímos para o bem comum. E Lagos fica a perder na sua globalidade e ainda mais uma zona com o valor emblemático da Ponta da Piedade.

(Opinião, Guedes de Oliveira)

LEIA TAMBÉM:

A água vai faltar em algumas zonas de Lagos

Militar da GNR morre em acidente perto do Autódromo do Algarve

PJ detém suspeito de homicídio

(Visited 1.883 times, 14 visits today)
pub
pub
ViladoBispo_Banner_Fev
pub