As estratégias de habitação e de poupança de água da Câmara de Lagoa

Terceira parte da entrevista ao presidente da Câmara de Lagoa, Luís Encarnação, em que se fala de projetos de poupança de água e de construção de habitação.

(Leia aqui a primeira parte desta entrevista e aqui a segunda)

………………………

Algarve Marafado (AM) – Nos últimos tempos tem-se falado muito do problema da escassez da água no país e na região. No caso da Câmara de Lagoa, o que está a ser feito nesta vertente?

LE – Temos realizado reuniões a nível regional, no âmbito da associação de municípios, a AMAL, e uma das medidas aprovadas é a de realização de campanhas de sensibilização, que no caso de Lagoa, já foi lançada.

Para poupar água, uma das medidas que a Câmara tomou foi desligar as três fontes que temos no concelho, ficando o sistema em atividade apenas o tempo suficiente para garantir a sua manutenção.

Na Piscina Municipal, reduzimos o período de renovação da água, bem como o número de lavagens das ruas, garantindo, no entanto, em ambas as situações, a salubridade e a saúde pública. Outra medida tomada foi a diminuição das lavagens das viaturas da autarquia.

AM – E em termos de intervenções no sistema de abastecimento, para reduzir as perdas de água, o que está a ser feito?

LE – Também aí estamos a tomar medidas, no sentido da poupança de água e da redução do número de roturas, até porque temos mais de 30% de perdas de água, o que está longe de ser o que queremos para o concelho.

Para isso, estamos a avançar com sistemas de monitorização do nível de pluviosidade e de humidade nos espaços verdes. Isso vai fazer com que nos dias em que chove ou em que haja muita humidade no solo a rega não se faça.

Estamos também a concluir um estudo de monitorização da rede de distribuição de água do concelho, pois queremos avançar de uma forma global para a resolução do problema. Para isso temos que ter uma radiografia completa da realidade do concelho. Muitas vezes, só a substituição de uma determinada conduta não resolve o problema, que pode resultar de deficiências das outras às quais está ligada.

Vamos agora para a segunda fase deste processo, no decorrer da qual serão apresentadas medidas concretas, a que se segue a terceira fase, de orçamentação de tudo isto para sabermos exatamente de que fundos precisamos para a execução concreta dessas medidas.

Um projeto para o qual já conseguimos obter financiamento a 100% de fundos comunitários é o da criação de zonas de medição e controlo (ZMC’s), que são verdadeiramente decisivas para perceber onde é que temos os problemas, para que os possamos corrigir.

Através deste sistema conseguimos identificar se numa determinada zona temos uma pressão demasiado elevada ou não, porque, com muita frequência, é isso que provoca as roturas, mais do que o estado de conservação das condutas.

AM – Ainda há fundos comunitários disponíveis para outras intervenções ao nível da melhoria do sistema de abastecimento de água?

LE – Tenho a esperança de que, através da AMAL, sejamos capazes de convencer os governantes nacionais e os responsáveis europeus de que não é justo que, por a região estar em phasing out, fique excluída do acesso a fundos comunitários para este tipo de intervenções.

Se a região tem um problema de falta de água e tem de melhorar a eficácia e eficiência da gestão da mesma e para isso precisa de grandes investimentos, acho que faz sentido que não seja considerada rica e que possa aceder a esses fundos numa percentagem considerável que permita que, com a maior celeridade possível, se possa fazer as obras necessárias.

AM – Há pouco falou que está a desenvolver uma ação de sensibilização para que os consumidores poupem água. Não haja que se deve também alterar a forma de faturação? Atualmente, as pessoas pagam um valor variável, que depende da quantidade de água que gastam, mas também um outro fixo, só para estarem ligadas ao sistema. O que acontece é que, mesmo que reduzam muito o consumo, não terão uma poupança substancial na conta final, uma vez que a parte fixa é a que mais pesa nas faturas.

LE – Numa primeira fase é necessário sensibilizar e tomar estas medidas, numa segunda temos de pensar que, se calhar, a faturação terá, realmente, de ser feita de uma forma diferente, beneficiando os que mais poupam e penalizando os que mais gastam. Mas essa será uma medida que Lagoa não poderá tomar de forma isolada porque estamos sempre dependentes da entidade reguladora, a ERSAR.

Transformar água do mar em água potável

AM – Relativamente à dessalinização (sistema que transforma a água do mar em água potável), não acha que nos deixámos atrasar? Espanha já tem muitas centrais em funcionamento e no Algarve agora é que vai começar o processo que levará à construção da primeira.

LE – Acho que estamos muito atrasados, os nossos vizinhos espanhóis têm mais de duas dezenas de centrais de dessalinização, tendo a primeira sido construída há mais de 20 anos.

Acho que a construção deste tipo de equipamentos é uma medida importantíssima para a região do Algarve.

A dificuldade que agora temos, curiosamente, apesar de possuirmos uma costa tão grande, é encontrar um espaço adequado para o efeito, devido às limitações que existem.

A ocidente, temos a área protegida da Costa Vicentina; a oriente, a Ria Formosa; no concelho de Lagoa vamos ter a primeira área marinha protegida comunitária – Pedra do Valado – e em muitas zonas existem arribas que dificultam a instalação de uma central.

Apesar destes constrangimentos, tenho a certeza absoluta que vamos encontrar uma solução. Alguns municípios, entre os quais o de Lagoa, já fizeram propostas de localização e vamos encontrar uma solução, pois, no mínimo, temos de ter uma dessalinizadora no Algarve, porque se prevê que haja uma tendência para períodos de seca prolongados, o que agravará os problemas que já temos nesta altura.

Mas sobre esta questão há que tomar medidas também ao nível da agricultura, que é responsável pelo consumo de quase 65% da água. E fico preocupado ao ver que, numa região que tem um problema estrutural de falta de água, se insiste em produções de frutos exóticos, como o abacate, que consomem enormes quantidades deste precioso líquido. Há que repensar isso.

A estratégia de habitação

AM – Relativamente à habitação, que medidas tenciona tomar para permitir que mais pessoas possam fixar-se no concelho?

LE – Temos a nossa estratégia local de habitação aprovada, com os respetivos cronogramas e orçamento, o que é condição essencial para aceder a fundos comunitários de apoio para esta área.

A nossa estratégia desenvolve-se em três níveis de atuação, o primeiro de habitação de renda apoiada, num total de 43 fogos, 36 dos quais no Bairro Municipal de Porches e sete junto à igreja de Lagoa, projetos que foram recentemente aprovados em reunião do executivo.

O segundo nível é o de habitação de renda a custos controlados – cujo projeto se encontra na fase de elaboração – para construção de mais de meia centena de fogos em Porches, a custos inferiores aos do mercado, num terreno que adquirimos no mandato anterior. Algumas dessas habitações ficarão para a autarquia colocar no mercado de arrendamento a custos controlados.

O terceiro nível é o que decorre da iniciativa privada. Há a pretensão de um investidor de construir 302 fogos na zona entre as traseiras da escola EB Jacinto Correia e a variante da A22.

AM – Mas isso serão habitações para vender a preço de mercado…

LE – Há, da parte do promotor, o compromisso de balizar um intervalo de preços que permitam às famílias fazer a aquisição das habitações.

Portanto, não se trata de, como acontece muito no Algarve, imóveis para turistas e para segunda habitação, que não resolvem o problema da falta de habitação, que, por seu lado, provoca também constrangimentos às empresas, sobretudo às da área do turismo, que não conseguem contratar pois, sem habitação a preços acessíveis, as pessoas não se instalam no concelho.

(Leia aqui a primeira parte desta entrevista e aqui a segunda)

LEIA TAMBÉM:

Presidente da Câmara de Lagoa reivindica mais uma Unidade de Saúde Familiar para o concelho

“A minha expectativa é que se recupere o investimento no Centro de Congressos do Arade em 10 anos”

Câmara de Lagoa vai comprar o Centro de Congressos do Arade

(Visited 284 times, 1 visits today)
pub
pub
ViladoBispo_Banner_Fev