“Juventude atual não é geração perdida”

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(Pode ler aqui a 2ª parte desta reportagem e também na edição imprensa ou online do Portimão Jornal)

Ao fim de cerca de três décadas como professor, Carlos Café ainda mantém viva a paixão pelo ensino e continua a procurar novas formas de incentivar os seus alunos a aprender, a interrogar-se, a expressar-se e até a colocar em causa aquilo que lhes é ensinado.

Algumas das mais recentes iniciativas levadas a cabo nas suas turmas foram a elaboração de uma petição de homenagem à figura e à obra do arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles e a construção, na Escola Manuel Teixeira Gomes, de um espaço (‘Our Speakers Corner’) que simboliza o livre pensamento e estimula a liberdade de expressão.

No primeiro caso, há muito que o documento ultrapassou as assinaturas necessárias para ser obrigatoriamente discutido no Parlamento, e “só estamos à espera que os novos deputados tomem posse para lhes entregar a petição, para que seja discutida e votada”, diz Carlos Café.

Quanto ao ‘Our Speakers Corner’, na sua curta existência tem vindo a cumprir a função para a qual foi criada, ”tendo, por exemplo, sido o espaço escolhido pelos candidatos à associação de estudantes para fazerem os seus comícios e onde alguns alunos vão fazer pequenas atuações musicais”.

Mas, há mais projetos na manga. Por exemplo, alguns alunos apresentaram uma proposta que, na opinião do professor, deve ser tida em conta aquando da realização de “uma profunda intervenção de requalificação de que há muito a Escola Manuel Teixeira Gomes necessita”.

Trata-se da “construção, aproveitando os declives existentes nos espaços exteriores, de um pequeno anfiteatro ao ar livre, como os gregos faziam, onde poderão realizar-se as mais diversas iniciativas de cariz cultural e artístico”. Há, ainda, a ideia de que seja ladeado por esculturas que serão também criadas por alunos.

Juventude ativa

Carlos Café contesta a ideia, por vezes muito divulgada por adultos, de que os jovens de hoje não têm grande interesse ou disponibilidade para temas realmente importantes para a sociedade, que são, no fundo, uma geração ‘perdida’.

A já longa experiência que leva como professor diz-lhe que isso não corresponde à realidade. De uma forma geral, os alunos “interessam-se por causas relevantes, pela intervenção cívica e até política e são muito ativos”. É claro que, tal como acontece em todas as gerações, “há jovens mais empenhados do que outros”, mas mostra-se muito agradado pela forma como os seus alunos encaram a vida e o futuro.

O docente tem verificado que, desde que lhes sejam dadas voz e motivação, acabam por mostrar o seu valor e por responder positivamente aos desafios.

E é isso que procura que aconteça nas suas aulas. Uma das ‘técnicas’ que usa é oferecer aos estudantes a possibilidade de “escolherem um tema qualquer, desde que tenha minimamente a ver com a filosofia, e elaborarem um projeto pessoal, usando o formato que muito bem entenderem, seja através da escrita, do vídeo, do som, da banda desenhada, da performance ou da curta-metragem”.

E o melhor de tudo é que as atuais regras de ensino permitem que estes trabalhos, que antigamente apenas eram feitos como atividades extra-curriculares, contem para a nota final, valendo o máximo de dois pontos, na escala de zero a 20. Por vezes, há até a possibilidade de abarcarem temáticas que envolvem duas ou mais disciplinas, permitindo, assim, abordagens multidisciplinares.

Desvalorização dos professores

Carlos Café considera que a classe dos professores tem vindo a ser muito desvalorizada, o que tem como consequência que “esteja envelhecida, pois, atualmente, são poucos os jovens que, uma vez formados, querem vir para esta profissão”.

Na base desta decisão estão questões financeiras e de carreira, mas para ela, provavelmente, também deve pesar o facto de se tratar de “uma profissão muito desgastante”.

No seu caso, não se queixa particularmente, considera que os seus colegas do ensino básico têm mais problemas a ultrapassar, por ‘apanharem’ alunos de faixas etárias que precisam de um maior apoio e encaminhamento.

E, como se os problemas habituais não fossem ‘suficientes’, ao longo dos últimos dois anos, a pandemia trouxe desafios inéditos ao universo escolar.

O sistema teve de encontrar novas formas de ensinar e professores, alunos e pais precisaram de, muito rapidamente, se adaptarem à nova realidade, que “criou muitas situações de ansiedade e pânico entre as crianças e jovens, tendo, ao que sei, aumentado bastante, as consultas de psicologia”.

Ainda assim, contra ventos e marés, Carlos Café continua a adorar a profissão e a procurar, todos os dias, formas de ultrapassar problemas e de fazer chegar a sua mensagem a alunos que são todos diferentes uns dos outros, o que o obriga a utilizar abordagens diferenciadas.

Contudo, não entraria em depressão se tivesse de deixar de ser professor, pois apesar de sentir-se bem nessa ‘pele’, “não tenho dificuldade em ver-me a fazer outras coisas ligadas à criatividade, às artes e ao conhecimento”.

(Pode ler aqui a 2ª parte desta reportagem e também na edição imprensa ou online do Portimão Jornal)

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