José Fernandes Silveira: Uma vida inteira à volta dos livros

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(Esta reportagem também pode ser lida na edição impressa do Portimão Jornal ou online, aqui)

É um dos estabelecimentos mais antigos de Portimão. Situada perto da Igreja Matriz, em plena zona antiga da cidade, a Livraria e Papelaria Algarve abriu portas em outubro de 1944 e, apesar das grandes mudanças ocorridas ao longo destes 77 anos, ainda continua em plena atividade.

José Fernandes Silveira é o principal rosto do espaço e, provavelmente, um dos portugueses que, em termos práticos, mais sabe sobre a arte de vender livros, devido à enorme experiência que tem nessa área.

Começou a estar envolvido no mundo dos livros logo após completar o ensino primário. Os tempos e a cultura de então eram diferentes dos atuais, o que levava a que, desde tenra idade, os jovens tivessem de entrar no mercado do trabalho para ajudar a família.

Lembra-se que deu os primeiros passos quando “tinha 10 anos e meio” e começou “a trabalhar a sério, com inscrição e descontos para a Segurança Social, aos 14 anos”.

Apenas fez uma pausa ao longo de cerca de três anos devido à obrigatoriedade de cumprir o serviço militar. Depois de assentar praça em Viseu, foi destacado para Leiria e, posteriormente, para a Trafaria, antes de ser enviado para a Guiné para participar numa guerra que nada lhe dizia.

No entanto, acabou por ter alguma ‘sorte’, uma vez que foi colocado na secção de segurança criptográfica, o que fez com que ficasse no quartel e não testemunhasse na primeira pessoa a tragédia que é ter de matar para não ser morto.

De regresso à ‘casa dos livros’

Assim que ficou livre dos seus compromissos militares, regressou à base, a Portimão, e à sua ‘casa’ de sempre, a Livraria e Papelaria Algarve.

Ao contrário do que hoje acontece, aquela zona da cidade foi, durante muitos anos, bastante movimentada, o que em boa medida se devia ao facto de, praticamente no edifício em frente, funcionar um estabelecimento escolar, o Liceu Municipal Infante de Sagres que, mais tarde, daria lugar à Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes.

Eram centenas os alunos e professores que diariamente davam colorido, alegria e animação àquela parte de Portimão e, naturalmente, contribuíam para a sua dinamização comercial. O empresário recorda que “isto estava cheio de manhã à noite, não tínhamos descanso”.

Há cerca de 36 anos, os donos da livraria quiseram retirar-se e José Fernandes Silveira passou de funcionário a patrão, com o apoio de um sócio, Gabriel Tavares. Mas com a passagem dos anos, a alteração das rotinas e dos hábitos e, sobretudo, a transferência da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes para as atuais instalações, situadas na Avenida São João de Deus, a movimentação naquela parte da cidade foi diminuindo.

Grande quebra na venda de livros

É certo que, posteriormente, no mesmo edifício foi instalado o Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, que conta com muitos estudantes, mas, lamenta o empresário, “a entrada passou a ser feita pelas traseiras, o que faz com que eles nem apareçam nesta zona”.

Com muito menos clientes, os estabelecimentos situados nas imediações foram fechando portas ou continuaram a laborar com cada vez mais dificuldades.

A livraria também sentiu essa mudança, a que há a somar a instalação dos grandes espaços comerciais e a tendência crescente para a compra de livros através da internet, com um simples clique. Devido a toda esta concorrência, em comparação com há uns anos, “tem havido um decréscimo enorme da venda de livros”.

O que ainda vai fazendo com que seja possível equilibrar as contas são os manuais escolares, financiados pelo Estado. Mas também nesta área já se vendeu mais, pois antigamente os alunos tinham que os adquirir todos os anos. Entretanto, passou a ser obrigatório que os estudantes devolvam os livros utilizados em cada época escolar, os quais são entregues a outros alunos, o que tem como resultado uma quebra de negócio para as livrarias.

Feira do livro era ‘balão de oxigénio’

Um evento que ajudava a sobreviver aquele e os poucos outros estabelecimentos do ramo que ainda existem na cidade eram as feiras do livro, realizadas no Verão, na zona ribeirinha, que “atraíam milhares de pessoas”. Com o aparecimento da pandemia, essa foi mais uma fonte de receitas que desapareceu.

José Fernandes Silveira diz que, “este ano, ainda se pensou em voltar a organizá-la”, mas a indefinição e os receios relacionados com a Covid-19 vai levar com que, provavelmente, só no próximo ano é que o evento regresse.

Por essa altura, ainda deve continuar a fazer o que sempre fez: abrir as portas da livraria pela manhã e esperar pelos clientes. Mas já são muitos anos, a bem dizer, quase uma vida inteira à volta dos livros e, aos 73 anos de idade, José Fernandes Silveira começa a sentir natural cansaço e a pensar em retirar-se.

Mas vê com preocupação o futuro da Papelaria e Livraria Algarve quando resolver dar esse passo. Para que continue a caminhada iniciada em 1944 é preciso que “apareça alguém que queira tomar conta disto”, o que até agora ainda não aconteceu.


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