Lagos – A quem pertence a parte superior da sacristia da Igreja de Santa Maria?!…

É verdade que as misericórdias nasceram ao abrigo da Igreja. Embora fundadas pela rainha D. Leonor, tiveram na sua génese, como fundamento, as sete misericórdias corporais e as sete espirituais.
E a de Lagos, ao longo dos seus cinco séculos de história, sempre demonstrou essa ligação e essa cooperação.
Não foi por acaso que a antiga igreja de Santa Maria, que se situava na atual rua do Adro, quando colapsou com o terramoto de 1755, logo a Misericórdia de Lagos a socorreu e pôs à sua disposição a Igreja da Misericórdia para, sem limites, a colocar ao seu serviço.
E essa ligação era tão intensa que a Misericórdia não se limitou à sua cedência; foi mais além e, naturalmente, cedeu também a sua pertença.
Igreja da Misericórdia transformada em Igreja de Santa Maria
E, assim, a antiga Igreja da Misericórdia passou-se a designar por Igreja de Santa Maria a partir do momento em que o culto aí se passou a realizar e em que todos os atos paroquiais aí começaram a ter lugar.
Com essa doação em termos institucionais, as confrontações foram delineadas passando a Igreja de Santa Maria a ter confrontação, do lado nascente, com o cais que dava acesso ao mar, do lado poente, com a rua Castelo dos Governadores, a frente norte, com a Praça do Infante e a parte sul com a horta do hospital da Misericórdia.
Apesar das confrontações estarem bem delineadas, o acesso à Igreja de Santa Maria, por parte da Misericórdia, em termos informais, dava-se através dos balcões da ala nascente que vêm da antiguidade até à posteridade.
Só com uma diferença. Nesses tempos de antanho, os balcões da ala nascente, eram frequentados por parte do pessoal da Misericórdia. Agora, estão encerrados.
A questão da parte superior da sacristia
E a parte superior da sacristia da Igreja de Santa Maria, que funcionou, nos primeiros tempos, como acesso do pessoal da Misericórdia ao culto paroquial, foi-se mantendo e até passando a ter outras finalidades.
Mas, desde início, não deixa de pertencer ao corpo de Santa Maria como faz sentido e como é devido. É de realçar que, após as nacionalizações dos bens da Igreja, houve devoluções.
E a Igreja de Santra Maria foi devolvida na sua integralidade e não na sua parcialidade. Outros passos já foram dados de forma a pôr em prática esta realidade também na atualidade.
Recordo, por exemplo, os tempos do Provedor Professor Jaime Palhinha, que, aí pelos anos oitenta, e em colaboração com os órgãos paroquiais, pôs a parte inferior da sacristia a céu aberto para, após obras de recuperação, efetuar a doação à Paróquia de Santa Maria.
A laicização dos corpos sociais das Misericórdias
Só que, entretanto, outros provedores vieram e fizeram ouvidos moucos ao que se havia combinado e concertado. E o problema começou-se a complicar a partir de uma acentuada laicização dos corpos sociais da Misericórdia.
E esta tradição teve continuação numa prática instalada e numa atitude reiterada. Esta laicização atingiu o seu zénite quando alguns corpos sociais decidiram afrontar o Bispo da Diocese ao não submeter, para aprovação, como os estatutos preconizam, os corpos sociais saídos de uma eleição.
Esta situação, levada ao limite, faria com que esses corpos sociais estivessem na ilegalidade e todos os seus atos fossem feridos de nulidade.
Mas se, entretanto, a submissão para aprovação dos corpos sociais fosse recuperada, o espírito de laicização começou-se a instalar e nem os atuais corpos sociais fogem a esta mentalidade.
Afinal, a quem pertence o espaço?
Mas, nem o espírito reinante ou a incapacidade de fidelidade aos ventos da história são capazes de fazer tábua rasa de um passado que enriquece as instituições e que é rico nessa cooperação que nem o tempo nem os passantes pelas instituições são capazes de apagar.
E é em fidelidade a um passado e a uma história comum que a parte superior da sacristia da Igreja de Santa Maria pertence ao corpo da Igreja.
E nem as teorias mais laicizantes ou avessas a uma história que vai muito para além da tradição são capazes de negar a realidade ou a factualidade que se perde no fundo dos tempos da fundação das misericórdias.
Vídeo em destaque:







