Os desafios do novo presidente da câmara de Portimão

Depois de um ‘ameaço’ de 40 dias, Álvaro Bila é, agora definitivamente, presidente da câmara de Portimão.
E tem muitos desafios pela frente que precisa de enfrentar se quiser ir a votos nas próximas eleições autárquicas em boa posição para vencê-las.
Convém lembrar que, nas Legislativas, o Chega deu uma banhada ao PS em Portimão, com um avanço de quase 2400 votos. É certo que as próximas serão eleições com outras características, mas nunca fiando.
Dizem os livros que, normalmente, não é a oposição que ganha as eleições, é o partido que está no poder que as perde.
E a verdade é que uma parte substancial da população não deve encontrar razões entusiasmantes para ir votar com convicção no PS, tendo em conta as muitas lacunas existentes.
Nos últimos 12/15 anos, em matéria de grandes obras estratégicas – ou mesmo não estratégicas – pouco se fez no concelho. Em determinada altura, por falta de dinheiro, depois, se calhar, devido à pandemia e nos últimos dois anos não se percebe bem porquê.
Consenso ou murro na mesa?
Mas comecemos pelas características do novo presidente da câmara.
A imagem que Álvaro Bila construiu é de um político de equipa, de consensos até com pessoas que não são do seu partido, pouco dado a roturas ou murros na mesa.
E a verdade é que tem tido sucesso com essa forma de fazer política, ao ponto de ter chegado ao topo do poder autárquico. Portanto, é de esperar que haja a tentação de não a alterar.
O problema é que ser presidente de câmara significa ser líder de uma enorme máquina e equipa e deparar-se com muitas pressões e interesses contraditórios, aos quais é preciso muitas vezes ter a coragem de dizer não.
Um presidente de câmara tem de mostrar liderança, ideias e projetos – até porque há muito por fazer – e força e habilidade para criar as condições para as levar à prática.
A este nível, não me parece ter passado uma boa primeira impressão a opção de aceitar voltar a ser número dois depois de subir a número um aquando a suspensão do mandato de Isilda Gomes, para concorrer às Europeias.
Já depois de ter a eleição assegurada, a ex-presidente, surpreendentemente, resolveu voltar à autarquia, atirando Álvaro Bila novamente, e durante algumas semanas, para uma posição secundária.
Foi uma contrariedade inesperada, mas era também uma oportunidade para o agora presidente se ter imposto. Bastava que suspendesse o mandato ou metesse férias até Isilda se ir embora para mostrar que não está ali para brincadeiras.
A atitude que teve até pode ter sido a mais responsável, mas…
Em termos de obras, até ao fim do mandato não lhe vai possível fazer grande coisa, a não ser concluir alguns projetos que já estejam em andamento, mas pode, desde já, mostrar novas ideias e projetos para desenvolver no mandato seguinte, caso ganhe as eleições.
Trânsito e estacionamento
Esta área é das mais complicada e a que maiores dores de cabeça causa a residentes e visitantes. Há muito que se devia ter começado a pensar e a intervir no sentido de se construir novas acessibilidades, porque em frequentes alturas do dia e do ano é um tormento transitar nas que existem.
Nos últimos tempos, a única coisa que se fez foi a alteração de trânsito na zona do Largo do Dique, que não resolveu nada de substancial. Parece-me que, inclusivamente, a situação piorou para quem quer sair da cidade pela ponte velha.
No que diz respeito ao estacionamento, para quem a conhece, esta até nem é das piores cidades do Algarve. De uma forma geral, é possível encontrar lugar gratuito para estacionar a dezenas ou a uma centena de metros do local onde queremos ir.
Mas é claro que nem tudo são rosas. É preciso lembrar que, na baixa da cidade, são privados dois dos principais espaços onde as pessoas podem deixar os carros: o terreno situado por trás da câmara e a chamada Horta do Burro. Quando os respetivos donos resolverem urbanizá-los serão muitas centenas de lugares de estacionamento que se vão perder. É preciso, desde já, pensar em alternativas.
Investimento muito mais ambicioso em habitação
Se a contabilidade não me falha, em cada um dos últimos anos, a câmara de Portimão conseguiu um saldo positivo de 20 ou mais milhões de euros. Isso permite que pague o empréstimo que tinha pedido ao Fundo de Apoio Municipal (FAM), passando a ter capacidade financeira para fazer grandes investimentos.
Em face disso, e tendo em conta que a habitação é provavelmente o principal problema com que, sobretudo, a população mais jovem se depara, penso que seria importante assumir um investimento muito mais ambicioso nesta área.
Por exemplo, uma parte do terreno do ‘antigo Palácio’, que é da câmara, estava destinado à construção de imóveis de luxo. Como essa possibilidade caiu, haveria agora a possibilidade de nele serem construídas habitações com outras características, destinadas à população que não tem hipótese de pagar os absurdos valores de mercado.
Equipamentos para infância e terceira idade
Quem tem filhos pequenos sabe que é quase impossível encontrar creches onde deixá-los, a preços razoáveis.
O mesmo problema sentem as famílias que precisam de colocar os seus idosos num lar.
Estas são outras duas áreas em que a autarquia precisa de investir fortemente, com o apoio do governo e/ou de fundos comunitários.
Saúde: qualquer dia até por causa de um corte no dedo é preciso ir a Faro
Pelo rumo que as coisas estão a tomar, qualquer dia é preciso ir ao hospital de Faro para tratar o mais pequeno problema de saúde.
Olhando de fora, o próprio aspeto do edifício do hospital de Portimão parece desleixado, nem sequer uma simples pintura lhe dão.
É certo que, infelizmente, os problemas da saúde são gerais e afetam, com maior ou menor intensidade, todo o país. A questão central é a falta de médicos, sobretudo em algumas especialidades, algo que não se vai resolver de um dia (ou ano) para o outro.
Mas a autarquia de Portimão pode tentar criar condições para tornar um pouco mais apetecível a que médicos, enfermeiros e outros técnicos de saúde possam optar por se instalar no concelho.
Se da muita habitação que é preciso construir, uma parte for destinada a estes profissionais já é uma boa ajuda.
A outra é ter capacidade política para fazer com que o Governo invista em equipamento moderno e de ponta para o hospital de Portimão, pois isso também contribuirá para atrair estes profissionais.
Não meter todos os ovos no mesmo cesto
Todos sabemos que Portimão vive do turismo. E, olhando à volta, com os muitos projetos de novos hotéis, empreendimentos e resorts que são conhecidos, percebe-se que a aposta é não só para manter mas até para aumentar substancialmente.
Isto, apesar de, pelo menos nos últimos 20 anos, em qualquer congresso, seminário, debate ou mesmo conversa de circunstância, toda a gente dizer que a região precisa de diversificação económica, pois não é muito inteligente meter todos os ovos no mesmo cesto.
Depois de tanta conversa, estudos e debates é capaz de já ser tempo dos responsáveis políticos, neste caso da câmara, mostrarem que têm uma ideia ou duas sobre o assunto.
……………
É certo que haverá muitas outras áreas que merecerão a maior atenção do novo presidente da câmara de Portimão, mas, seguramente que estas terão de estar na lista de prioridades.

Este é um dos mais belos trilhos naturais do Algarve
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