Carlos Gouveia Martins: “Há falta de liderança política em Portimão” (entrevista, parte 2)
Segunda parte da entrevista a presidência da Câmara de Portimão, pela coligação “Portimão 2025 PSD, CDS, IL”. Carlos Gouveia Martins mostra-se convicto que desta vez vai ser possível ganhar as eleições e diz que Isilda Gomes seria uma adversária mais forte que Álvaro Bila .
Leia aqui a 1ª parte da entrevista
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Algarve Marafado (AM): Atualmente, circular em Portimão já é difícil. Para a zona da Praia da Rocha estão previstos dois enormes empreendimentos residenciais e turísticos na zona da marina e do cais comercial, que vão trazer mais alguns milhares de pessoas para a zona. Para um espaço situado a poucos quilómetros de distância foi, recentemente, apresentado um projeto de quatro novas grandes torres de apartamentos. Se a tudo isto juntarmos muitas outras construções que irão seguramente ser surgir, como é que se vai conseguir entrar e circular em Portimão sem uma nova travessia e novas acessibilidades daqui a alguns anos?
Carlos Gouveia Martins (CGM): A Praia da Rocha é uma zona muito importante, mas também muito esquecida, politicamente. Continua a crescer, independentemente do número de anúncios que houve do executivo socialista, com diferente lideranças, que não ia haver mais betão, a verdade é que continua a haver por falta de previsibilidade do executivo em relação ao que quer.
Sobre a Praia da Rocha, primeiro há que decidir a estratégia que queremos para aí, porque é um ex-libris da cidade, é uma zona que toda a gente no País conhece, é, provavelmente, a praia mais conhecida do Algarve e, portanto, de Portugal. Nós vimos vários executivos dizerem que não haveria mais betão para ali. Eu não seria tão drástico porque pode haver projetos de grande mais valia, de enorme qualidade e diversidade, ao nível de habitação, pelo que ninguém pode dizer, no seu perfeito juízo político que ali não se constrói mais. Acho estranho que políticos em cargos de responsabilidades dizer isso, em habitação não há o nunca nem o sempre.
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Está-se a olhar para a Praia da Rocha nos meses de verão, com eventos em alturas em que, se calhar, já temos densidade de turistas, pelo que não necessitamos desse tipo de estratégia para alocar mais pessoas para essa zona.
O estacionamento é diminuto em relação à procura ao longo dos 12 meses e não só nos de verão, pois aí não é complicado, é impossível. Ao nível das acessibilidades tem de fazer novas artérias na Praia da Rocha para se conseguir fazer fluir o trânsito. Atualmente, a Praia da Rocha é só agosto, houve alturas, quando eu era mais jovem, em que era junho, julho e agosto, agora é agosto, a marca Praia da Rocha funciona só em agosto e em roda livre e ainda assim por mérito dos comerciantes e promotores privados, o mérito do município não é nenhum porque até aquilo que ali faz podia fazer noutros meses e incidir mais atração em época mais baixa.
Relativamente à avenida Tomás Cabreira há sempre aquela discussão sobre se deve ou não ter carros e que seja. Acho que aquela zona deve deixar de ter carros e ser uma zona de passeio, de turismo, de comércio diferenciado. Estamos a trabalhar a 25 anos e assumo que espero que daqui a 25 anos não tenha carros. Que tenha parques de estacionamento, quer para o lado da Praia do Vau, quer no outro lado, na zona da Fortaleza, e também no centro e em que o município assegure uma estratégia de dotar de mais transporte urbano, que facilite o acesso àquela zona.
Estamos condenados a viver apenas do turismo?
AM: Muitos dos problemas referidos e outros derivam do facto do concelho viver quase exclusivamente do turismo. Há décadas que ouço falar que temos de diversificar a nossa economia, mas quando se fala em novos grandes investimentos são quase sempre para construir mais hotéis e empreendimentos turísticos, com a bênção dos autarcas. Portimão está condenado a continuar por esse caminho, não tem potencialidades para mais do que isso?
CGM: Acho que não. A marca Portimão é muito forte, não só no mercado nacional, como no internacional e não apenas na vertente turística.
Olhando para o Autódromo, tivemos um projeto, o Celerator, de 4 milhões de euros, que não avançou exclusivamente por falta de liderança política. Visava atrair instituições de ensino de grande relevância nacional e internacional, jovens estudantes e promotores tecnológicos para trabalhar no setor automóvel e poderia atrair novas pessoas, famílias, empresas, até startups. O executivo atual, pelos vistos, não quis avançar com isto.
Portimão tem várias especificidades. Tem um porto de cruzeiros único, mas falta uma aposta clara naquele turismo, que não é só de verão. Temos o autódromo, onde podíamos ser, a nível de mecânica, tecnológica e startups, uma aposta para atrair pessoas e universidade.
Ao nível do ensino superior, fala-se muito no campus universitário, todos já percebemos que não é nada do que foi anunciado…
AM: Mas não é nada como? Não vai avançar?
CGM: Da forma como foi consignada e apresentada pelo município não vai avançar, isso é uma evidência.
AM: Porque é que diz isso?
CGM: Digo porque, a nível legal e da estruturação do concurso que fizeram, não pode avançar. Porque aquilo não pode ser doado a uma instituição uma vez que que pode haver mais do que um interessado. Por alguma razão se diz que é um concurso público e uma proposta aberta, não pode o município fechar com quem quer.
Por aquilo que sei, não foi pensado ao nível de habitação estudantil, de acessos à zona, foi um daqueles anúncios que, infelizmente, acontecem muito na política.
Portimão é a única cidade abaixo do rio Tejo que tem dois polos de ensino universitário, um público e um privado, mas não temos uma visão de cidade universitária e devíamos ter. A minha equipa faz uma aposta clara na cidade universitária, aliás, o nosso candidato à presidência da Junta de Portimão foi até presidente da Associação Académica da Universidade do Algarve, é uma pessoas muito ligada a esta área.
Portimão foi Cidade Europeia do Desporto e não aposta em grandes eventos desportivos, que poderiam trazer pessoas para cá na época baixa. Portimão deve ser um concelho com atratividade para 12 meses e atualmente afunilamos tudo entre julho e agosto.
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PSD, CDS e IL no mesmo barco
AM: Você lidera uma coligação que tem três partidos. Se ganhar as eleições vai ser possível ter uma política e uma gestão coerentes, em face das ideias diferentes que esses três partidos têm?
CGM: Eu diria que sim. Em primeiro lugar porque muito antes de fazermos o acordo político – e acordos políticos não são fáceis, toda a gente tem a noção disso – estabelecemos os eixos programáticos e estratégicos com que todos concordamos: a segurança, a mobilidade e acessibilidade, o desenvolvimento económico e a habitação sob toda uma chancela de políticas do território e desenvolvimento territorial do concelho, a 25 anos. Todos estamos no mesmo barco.
Já fizemos várias reuniões, algumas das quais com mais de 100 personalidades da sociedade civil e especialistas em que todos os partidos concordaram com aquilo que ali foi delineado. O programa está a ser construído a três.
Sinto-me muito confortável, estamos convergentes nos eixos estratégicos, nas coisas que digo serem como imprescindíveis. Nas importantes também estamos muito alinhados e, apesar de sermos partidos diferentes, somos pessoas que já trabalhamos e já nos conhecemos politicamente há muitos anos.
Sempre falei muito bem com as pessoas do CDS-PP, com a Iniciativa Liberal, também, desde que chegou. Haverá momentos em que os partidos terão a sua autonomia, que respeitarei, e iremos conversar e negociar, sou uma pessoa conhecida por se sentar à mesa e conseguir consensos.
Álvaro Bila aprovou tudo o que foi feito
AM: O seu principal ‘alvo a abater’, porque é o que está no poder, é Álvaro Bila. Ele é presidente da autarquia creio que há cerca de um ano, como é que tem visto a sua liderança e o trabalho que tem feito em Portimão?
CGM: O Álvaro é uma pessoa que conheço há muito tempo, ele tem 20 anos de autarca, esteve na junta, antes de ser presidente, esteve no executivo noutras funções e é parte integrante das coisas boas feitas no mandato da dra. Isilda Gomes, e das coisas menos boas.
Acho que manteve uma ausência de liderança no tema de habitação, por exemplo, não se lhe conhece um planeamento estratégico e uma visão. A nível de mobilidade e acessibilidade houve anúncios mas não conheço efetivamente uma grande alteração, até sentia mais incidência e articulação no executivo anterior a este liderado por Álvaro Bila.
Na questão da atratividade, vê-se que é um executivo que que pensa Portimão só a um mês (agosto), não vi nada de novo. Também se visse muitas coisas diferentes, eu não seria candidato à câmara, se concordasse com tudo diria que é melhor ficar como está.
Por achar exatamente que há uma lacuna e uma ausência de liderança e, sobretudo, de estratégia, a multinível, para o concelho é que acho que deve haver uma alteração.
Sobre o Álvaro, naturalmente que é uma pessoa pela qual tenho o maior respeito, está há 20 anos ligado ao PS e às obras que foram feitas. Agora, não posso avaliar o presidente atual, por estar em funções só há um ano, isso é entrar na demagogia. Ele foi vice-presidente, aprovou tudo o que foi feito, antes disso foi presidente de junta, portanto tem responsabilidades sobre o estado da freguesia de Portimão e sobre o centro histórico da cidade e a Praia da Rocha.
Uma coisa sei: quem não tem responsabilidades sobre o estado em que está o concelho sou eu, é o PSD, é o CDS e é a Iniciativa Liberal.
Isilda Gomes seria uma adversária mais forte
AM: Acha que Álvaro Bila é um adversário político mais ou menos forte do que seria a sua antecessora, Isilda Gomes?
CGM: Acho que Isilda Gomes seria uma adversária mais forte. O Álvaro Bila é um adversário muito forte, uma pessoa muito vivida no centro da cidade, foi um presidente de junta muito presente nas coisas do concelho. Mas, a nível de estruturação e debate político, Isilda Gomes é uma das maiores políticas que Portimão teve, uma pessoa com muita intensidade, com muito rasgo, com muita capacidade de iniciativa e, portanto, seria uma adversária mais difícil, até pela sua experiência. É atualmente eurodeputada e espero que faça um bom trabalho nas suas funções.
O Álvaro Bila é um candidato muito forte, também, é porventura, diz o PS, o candidato mais forte que podia ter, terá os seus estudos para o dizer, mas Isilda Gomes era mais forte do que Álvaro Bila, na minha ótica. Tenho uma boa relação com ambos, a questão pessoal está à parte, na vertente política conheço mais e melhor Isilda Gomes, ao Álvaro não conheço pensamentos sobre muitas matérias da cidade, sei que tem um conhecimento associativo, onde teve a sua maior incidência de vida, mas não conheço ideias nas áreas da habitação, educação e mobilidade.
Diria que seriam ambos bons candidatos. Eu seria candidato contra qualquer um dos dois, com todo o gosto, mas acho que Isilda Gomes era a candidata mais forte.
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Portimão sente que é necessária uma alternância política
AM: O seu partido anda há praticamente 50 anos a tentar tirar o PS do poder em Portimão e nunca conseguiu. O que o leva a acreditar que desta vez vai ser diferente?
CGM: Um conjunto de muitos fatores. Ao nível de base eleitoral, nós vivemos, infelizmente, em muitas décadas, uma falta de coesão no meu partido, em primeiro lugar, e depois uma falta de agregação com parceiros políticos. A soma aritmética diz que o PSD, em alguns momentos, se tivesse concorrido coligado com o CDS, teria conseguido obter uma vitória eleitoral. Por vicissitudes várias, isso não aconteceu.
Agora, conseguimos ter uma agregação grande de partidos, o PSD e o CDS têm grande representatividade eleitoral em Portimão e a Iniciativa Liberal, por resultados que não podem ser comparáveis, nas Legislativas e Europeias, também tem tido uma boa introdução na base eleitoral em Portimão.
Aquilo que também acho que é muito importante é que sinto uma grande união no seio dos partidos. O PSD, ao final de quase duas décadas, não teve pessoas que se foram rever no nosso principal adversário, estão todas no PSD. Os ex-candidatos à liderança do município pelo nosso partido estão todos com o atual candidato do PSD, os ex-candidatos do CDS também estão e igualmente as pessoas da Iniciativa Liberal. Portanto, isso é uma base importante para cimentar.
Segunda nota: o apelo da sociedade. Sente-se que Portimão está descrente, o que não tem só a ver com condicionantes políticas, mas também tem. Portimão sente que é necessária uma alternância política, repito que o PS fez coisas boas ao longo de 50 anos, teve bons governantes, tem pessoas competentes, mas sente-se que falta uma alternância, uma frescura diferente, faltam entrar novos protagonistas, novas ideias, novas ideologias, também.
Depois, há um terceiro fator que é importante. Sente-se que Portimão precisa de voltar a unir-se. Não se pode fechar no gabinete da câmara sem ter reuniões. Quem está no cargo tem que ir para a rua, falar com os responsáveis do tecido associativo, com os comerciantes, com os promotores, com os jovens, que é uma lacuna muito grande.
Por fim, acho que Portimão reconhece que temos pessoas muito preparadas, academicamente e profissionalmente, nesta lista. Pessoas que estudaram, que nas suas empresas criaram os seus negócios, que trabalharam nos negócios de outros, que estiveram a trabalhar no estrangeiro, a ver boas práticas e exemplos.
Portanto, em resumo, o que sinto de diferente: uma grande união, uma grande vontade de fazer, uma grande integração com setores esquecidos, como os jovens e, acima de tudo, pessoas muito preparadas e muito consciencializadas que vamos ganhar as eleições e que temos gente capazes para colocar em prática tudo aquilo que andamos a dizer.
A prova disso é que começámos na distribuição de pessoas na lista da câmara por pelouros e não por partidos, é muito interessante isto. Cada pessoa tem uma responsabilidade já, na minha cabeça, pois sou eu que liderarei o processo, sei que área e competência terá. E, infelizmente, já estive em projetos em que isso não acontecia, era para dar resposta ao que os partidos queriam e comigo não funciona assim.
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AM: Mesmo para fechar, e de uma forma muito telegráfica, para além de todos estes temas que já falámos, quais são dua ou três outras prioridades que tem para Portimão?
CGM: A primeira é tornar Portimão uma marca a 12 meses, com uma diversificação de atração, seja da parte industrial, seja da parte associativa ou universitária.
Há muita necessidade de uma articulação maior sobre a parte da causa animal, também. É uma área que tem muita visibilidade e muita intensidade de procura de respostas dos populares, que são apartidários, na sua larga maioria. O município tem de intervir nesta matéria e tem que ter uma direção e uma estratégia para esta temática.
Por fim, dizer que a nível de atração de promotores e de estratégia empresarial, temos de criar novas novas condições. As empresas têm que olhar para nós e dizer que somos uma cidade boa e um bom sítio para investir.
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