O caos urbanístico da Meia Praia

A Meia Praia sempre foi considerada um potencial paraíso turístico.
A sua configuração, debruçada sobre a baía de Lagos, dava-lhe particular apetência para vir a ser um território de exceção se houvesse visão de futuro com a sua urbanização.
Mas, desde início, quando a sua urbanização, em força, começou a chegar, logo se viu que o seu futuro se começava a hipotecar.
Veja-se aquele primeiro prédio que, da segunda bifurcação da rotunda da estação, se estende até à que nos leva ao Vila Galé.
Além das suas dimensões desproporcionadas e esteticamente pouco recomendadas, apoderou-se do traçado da estrada à sua frente empurrando-a mais para diante.
O resultado foi, na sua extremidade nascente, se criar uma curva e contra curva que culminam numa rotunda forçada.
E o pior é que, mesmo ao lado, se acabou de erguer um prédio em local que serviria para a endireitar e para lhe dar uma configuração, no presente, com alguma nobreza e, no futuro, dimensão e alguma beleza.
Estradas hipotecadas
Mas, hipotecada a estrada da Meia Praia que tem de andar a serpentear um edifício acabado de construir e, possivelmente, outros que lhe virão a seguir, outro foco de conflitualidade se acaba de erguer com os edifícios em redor da estação que se encontram em construção.
Com o estandarte erguido no ar de futuras unidades hoteleiras de renome mundial, pouco enquadramento têm com o antigo edifício da estação e não respeitam o presente nem o futuro das vias de circulação.
Basta observar aquele edifício ainda em construção, na ala poente da estação, para se verificar que, entre ele e o edifício da marina, pouco espaço há para circular.
É confrangedor verificar-se como aquele edifício se está a debruçar sobre aquela via de circulação e a hipotecar, já no presente, uma realidade que, no futuro, tem a ver com o crescimento da cidade.
Não basta aquele edifício, de proporções consideráveis, se abater sobre o passeio e sobre o próprio eixo da vida; do outro lado do terreno da estação, na sua ala nascente, outra construção de consideráveis dimensões está a sufocar tudo o que a está a rodear.
Mas, para o justificar, acena-se com uma unidade hoteleira de cinco estrelas como ponto de justificação e como marca de construção.
Mesmo nas suas imediações e em decadência forçada, o edifício do antigo museu ferroviário continua a resistir enquanto uma mão ousada não o vier demolir.
Projeto de especulação
Tudo é vendido como um feito de grande monta que vem beneficiar a cidade e como algo inédito que se está a projetar para a posteridade.
Foi o que aconteceu, há anos atrás, quando, no Centro Cultural, nos vieram anunciar as estações com vida de que Lagos iria beneficiar.
E essas estações com vida, como agora se vê, não passam de um projeto de especulação com os terrenos da estação.
Até poderiam existir num projeto global, devidamente enquadrado, com vias de comunicação e tendo como sustentáculo um plano de urbanização, em sintonia com a parte antiga da cidade e que se abrisse à modernidade.
Polo de animação e restauração
Seria, por exemplo, de se pensar, a sul da Sopromar, num polo de animação e de restauração dos tempos vindouros da cidade de Lagos.
A rua Silva Lopes e a 25 de Abril já são demasiado acanhadas para tanta animação e para tanta restauração. O mesmo se pode dizer do restante centro histórico de Lagos.
Mas o que se estará a desenhar a sul da Sopromar é mais uma unidade hoteleira para aquele lugar.
E, assim, esse que poderia ser um pólo de restauração e de animação das noites longas de Lagos continua a ficar confinado apenas ao seu centro histórico.
E, entretanto, a Meia Praia vai-se deparando com construções e novas urbanizações que, em vez de obedecerem a um plano pré-determinado, vão crescendo e deixando em seu redor espaços sobrantes para vias de circulação e praticamente nenhuns espaços verdes para alimentar este espaço em crescimento e em franco desenvolvimento
Mas a construção, bastante ousada em volumetria e mesmo em altimetria, está a atingir outros espaços da cidade.
Veja-se o que aconteceu com as Torres da Torraltinha. O mesmo se poderá dizer em torno da rua dos Celeiros ou da rotunda D. João II.
Lagos, no contexto do Algarve, sempre foi contida nos seus planos de urbanização e em alguma harmonia na dimensão da sua construção.
Mas a avaliar pela que está a acontecer, ter-se-á de repensar os índices de construção e em harmonia com o crescimento e o desenvolvimento de áreas de exceção, como é o caso da Meia Praia.
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