Lagos com o verão em autogestão

 O verão já terminou. E tal como diz o poeta, foi um sonho que passou. E, de facto, bem mais rápido do que seria de esperar.

Apesar deste outono, ainda a começar, rivalizar com os dias mais amenos com que a época balnear espalhou por Lagos e pelo Algarve adiante, os dias já se começam a encurtar e as árvores, com as suas folhas amareladas, a anunciar que outros tempos já estão entre nós.

Para trás ficaram as grandes enchentes de verão de uma cidade sempre apetecível, atraente e com o seu toque especial em qualquer época estival. Basta percorrer as suas praias, admirar as suas falésias, passear pelas ruas labirínticas do seu tecido urbano ancestral ou admirar o seu património paisagístico ou monumental. É uma cidade que emana magia, sedução e que, por tudo o que de si transpira, exerce um grande poder de atração.

A estas qualidades ancestrais, paisagísticas e naturais, a mão humana deveria ter algum poder de intervenção para valorizar estes dotes que nos foram legados e para ainda mais serem valorizados. E, naturalmente, serão os eleitos locais que têm entre mãos esta nobre missão de potencializar, de valorizar e até de divulgar todo este vasto património.

Há que preparar melhor o verão

E, se esta é uma tarefa contínua e a ter lugar todo o ano, ganha ainda mais expressão quando se anuncia o verão. É uma forma de nos valorizarmos, de darmos a conhecer tudo o que de melhor possuímos e também da cidade dar a conhecer que sabe bem receber.

Mas contra o que seria de esperar de uma terra cheia de sol, luz e esplendor, o verão anuncia-se sem qualquer preparação e sem a programação devida para fazer frente às multidões que percorrem os seus espaços. Se, durante o ano, a limpeza é um caos que tarda em se solucionar, pelo verão os problemas amontoam-se e não há quem lhes deite a mão ou encontre a melhor solução.

Uma ou outra medida pontual no centro histórico não tem sido suficiente para arredar o lixo do seu interior ou para dar uma imagem lavada às suas ruas e calçadas. Apesar deste ser um problema em constante ebulição e fazer fervilhar até as águas políticas de Lagos, não há forma de o resolver e de fazer de Lagos uma cidade limpa, asseada e bem tratada. E a perplexidade é maior quando é sabido que a Câmara Municipal, em termos financeiros, bem poderia fazer este investimento por respirar saúde e até folga no seu orçamento.

Mas para além da limpeza, todo o verão, nas suas diversas vertentes, mostrou não ter coordenação. Foi o que se viu com os parques de estacionamento, pelas praias adiante, sem qualquer preparação e, com o tempo a passar, sem qualquer manutenção.

O mesmo se poderá dizer com alguns dos passadiços de acesso. O exemplo mais ilustrativo poder-se-á encontrar a poente da estância balnear da Duna, na Meia Praia. São travessas de madeira partidas, pedaços em contínua degradação e pregos e parafusos espetados no ar para qualquer criança ou mesmo adulto se poder magoar. Até fossas, nas dunas, chegaram a transbordar ou, devido a falta de isolamento ou deficientes condições, a exalar cheiro nas suas imediações.

Venda ambulante precisa de mexidas

Até a venda ambulante, essencial mesmo numa cidade com turismo de qualidade, requereria ordenação e sintonia com um plano a funcionar como uma mais valia para a cidade e a economia de uma franja da nossa população.

Mas, com um verão em autogestão, tudo é improvisado, desordenado e deixado à sua sorte. É o que se pode observar ao longo da nossa avenida convertida em constante feira improvisada com todos os vícios que a rodeiam.

E pelo centro da cidade o panorama não é muito diferente com esplanadas em aumento constante a, praticamente, não deixarem passar quem quer desfrutar destas noites tão típicas da nossa época balnear.

Salva-se pela positiva a animação improvisada que sempre consegue dar algum colorido e um toque diversificado às noites do centro histórico de Lagos. Mas, em sentido contrário, temos a animação oficial que acaba por ser um retrato fiel de um amadorismo e de um provincianismo que a cidade dificilmente suporta.

E ainda mais com um palco montado, às sextas-feiras, ali defronte da Igreja de Santa Maria a dar, com as suas músicas e os seus bailes, um ar deprimente à Praça do Infante. Até poderia ter lugar se a soubessem enquadrar num espaço como o do Mercado de Levante. Mas sujeitar a animação de verão, pelo menos a oficial, a este tipo de programação diz bem da falta de qualidade, do desenquadramento e da desvalorização de uma cidade como a de Lagos.

Tudo acontece por falta de uma ideia da cidade que se quer e por ausência de uma estratégia para a alcançar. Só assim se pode compreender um certo abastardamento do nosso espaço público com bustos e bustinhos, bailes e bailezinhos ou marchas e mais marchinhas.

É tempo da cidade se começar a pensar e, de uma forma mais imediata, preparar a próxima época balnear. E ter-se-á de começar pelas coisas mais comezinhas como a da limpeza, do asseio e da boa apresentação, todos os dias do ano, com especial incidência pelo verão. Não se pode continuar com a limpeza em constante degradação, com jardins maltratados, com rotundas cheias de ervas e constantemente a crescer, com passeios esburacados, com calçadas levantadas e com toda uma panóplia de deficiências que nos dão a sensação de uma cidade em autogestão particularmente pelo verão.

(Opinião – Texto e fotos: Guedes de Oliveira)

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