As consequências da gestão unipessoal da Academia de Música de Lagos

Uma intensa vida associativa é sinal de dinamismo, de vitalidade e até de saúde da própria sociedade.

É por isso que uma comunidade aberta, plural e com um projeto de futuro comporta as mais diversas manifestações entre as quais as suas próprias associações. São uma forma de responder aos desafios que a sociedade tem de enfrentar e é chamada a responder. E ganham preponderância por serem também escolas de cidadania e espaços onde a democracia se reveste dos seus aspectos mais nobres.

Mas, como em todas as dimensões da vida, por mais nobres que sejam os caminhos a seguir, há sempre formas de os subverter. É, em parte, o que se tem passado com a Academia de Música de Lagos. Começou como um projeto empreendedor, de um dinamismo invulgar e com uma capacidade de iniciativa difícil de igualar. E, durante anos, foi fazendo o seu percurso sempre em ascensão e, cada vez com maior fôlego, foi alargando o seu campo de acção.

Mas a esse crescimento constante, a essa imaginação digna de assinalar e a esse dinamismo que conseguia contagiar, não correspondia essa escola de cidadania nem esse exercício mais lídimo da nossa democracia. Em vez de uma constante renovação dos seus procedimentos e dos seus métodos de gestão, tudo se passou a concentrar e, com uma gestão unipessoal, os vícios começaram a prosperar.

Foram-se aperfeiçoando e enraizando na estrutura da Academia e, com o tempo a passar, pouco a pouco foram-se tornando normalidade no seio desta coletividade. Foram, segundo informações surgidas na comunicação social e referidas por alguns membros dos corpos sociais, turmas fantasma que, alegadamente, se começaram a fabricar, assinaturas sem suporte real que começaram a aparecer, contratos com professores sem obedecer à legislação e toda uma panóplia de decisões que pouco ou nada tinham a ver com os objetivos da instituição. Foi o que se passou com a compra de imobiliário e de um hostel cuja gestão tem sido objeto de contestação pela mão de algumas das suas mais proeminentes figuras.

E quando este modelo de gestão começou a encontrar, dentro dos órgãos sociais, reparos e contestação, uma purga começou a ser ensaiada e acabaria, com a passagem do tempo, por ser concretizada. Foi o que aconteceu, de uma forma contundente, na Assembleia Geral, com a expulsão do seu próprio Presidente.

O mesmo aconteceu a professores que não se deixaram amestrar e começaram a manifestar-se. Outros casos começaram a transpirar e a imagem da Academia de Música de Lagos começou a ser abalada e a sua inovação e modelo de gestão a levantar um mundo de interrogações e até de algumas suspeições.

Com este clima gerado, algumas inspeções começaram a descer e a revolver os terrenos em que se movimentava a Academia. Como consequência, nasce um processo judicial movido por uma entidade governamental.

O Ministério da Educação por, alegadamente, ter detetado turmas fantasma que estava a subsidiar e por, em simultâneo, se ter deparado, também segundo a informação que tem vindo a público, com assinaturas fabricadas que estavam a suportá-las, decidiu agir, cortar a sua participação e participar judicialmente da instituição. E, já com o processo em curso, a Câmara Municipal de Lagos também decidiu dar um passo em frente ao constituir-se no processo como assistente.

Em causa, fica, assim, o nome de uma instituição que tinha crescido, que se tinha expandido e cuja qualidade poderia evoluir e abrir diante de si novos e mais abrangentes horizontes de futuro. Se essa abrangência se abrisse à congregação, debaixo do mesmo teto, de todas as instituições de ensino aprendizagem no campo da arte musical, poder-se-ia abrir espaço à criação de um conservatório que funcionasse como um polo de ensino superior capaz de dinamizar a cidade e de, em termos culturais, lhe dar outra qualidade.

Mas como, por norma acontece, uma gestão unipessoal e com laivos de autocracia deslumbra-se com o poder e tudo concentra em redor da sua pessoa. E, como consequência, levanta as maiores resistências à participação e a um modelo de gestão que pressuponha colaboração e responsabilização em tudo o que diga respeito a uma tarefa comum assente em objectivos a definir, em caminhos a percorrer e em tudo o que tenha a ver na implementação das estratégias para os alcançar.

E quando assim acontece, o deslumbramento e o auto convencimento são o caminho a seguir com as consequências que daí poderão advir. E, no caso da Academia de Música de Lagos, já estão bem à mostra.

 

(Opinião – Texto e foto: Guedes de Oliveira)

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