Reconstrução do hospital foi o grande desafio

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(Segunda parte de uma reportagem com João Amado. O texto foi originalmente publicado no Portimão Jornal, que pode ler na versão impressa ou online aqui . Também pode ler a 1ª parte da reportagem aqui)

A medicina sempre foi a área profissional que João Amado quis seguir, apesar de não ter ninguém na família ligado a ela. Formou-se em Coimbra e, de regresso ao Algarve, fez a especialidade em cardiologia em Faro e o internato no então Hospital Distrital de Portimão, que é o atual Hospital de São Camilo, que dirige.

Ao longo da sua vida “estive no setor público, no privado e no social” e entende que todos eles são válidos e que os dois últimos devem ser complementares do primeiro.

Na sua opinião, a saída de profissionais do setor público deve-se muitas vezes, não tanto à questão financeira, mas “porque a capacidade de evoluir e de fazer coisas diferentes é maior no setor privado”. Nos hospitais públicos “o processo de decisão é lento, os profissionais muitas vezes esperam uma eternidade para que um equipamento necessário seja adquirido, enquanto no privado numa semana o problema está resolvido”.

A construção de um novo hospital na região é, frequentemente, apresentada como a solução milagrosa para os problemas existentes ao nível da saúde pública. João Amado não concorda com essa ideia, acha que “ela serve, desde há muitos anos, como desculpa para aquilo que não se faz, pois a questão essencial está na falta de investimento em equipamento diferenciado e isso pode e deve ser feito com ou sem um novo hospital”.

Para diminuir a falta de médicos uma das medidas que defende é que se coloque um maior número de profissionais a fazer as especialidades em hospitais periféricos e não, como geralmente acontece, nos dos grandes centros. Muitos deles criariam raízes e até formariam família nessas zonas, o que levaria a que, com mais facilidade, aí se fixassem, resolvendo-se, dessa forma, parte do problema de recursos humanos.

O Estado deixou obras por legalizar

Para além de diretor clínico do Hospital São Camilo, João Amado é também – desde há 9 anos – provedor da Misericórdia de Portimão e já anunciou que sairá do cargo no final deste mandato. A decisão é justificada por entender que “ao fim de alguns anos à frente deste tipo de instituições, há o risco de se começar a pensar que ninguém é melhor do que nós e devemos sair antes que isso aconteça”.

Por outro lado, considera que “tudo o que me propus fazer está feito”. Um dos grandes desafios com que ele e a instituição se debateram foi a recuperação e viabilização do hospital da Misericórdia, que, depois de 1975 e até à abertura do Hospital do Barlavento, em 1999, funcionou como o Hospital Distrital de Portimão.

Nessa altura foi devolvido à Misericórdia, “mas só com as paredes e com ampliações e obras realizadas pelo Estado por legalizar, que muitas dores de cabeça nos têm dado”.

O então provedor, José Francisco Serralha, avançou com um projeto de recuperação e ”em 2005 convidou-me para diretor clínico do hospital”. Ao longo de vários anos foi feito um grande investimento para implementar diversas valências, sendo uma delas “o projeto piloto de cuidados continuados, de que fazemos parte desde o início e que foi uma das missões que mais me motivou”.

Entretanto, lamenta, boa parte das promessas feitas pelo poder político não foram cumpridas, o que deixou a Misericórdia em situação muito difícil e o futuro do hospital em risco. A solução passou por uma parceria com o grupo HPA (Hospital Particular do Algarve).

Nesta altura, garante, “temos todo o espaço aproveitado, com bloco operatório, internamento médico e cirúrgico, consultas externas nas várias especialidades, exames complementares e com médico permanente, 24 horas por dia”.

Os perigos do negacionismo

Para além do hospital, a Misericórdia conta com 2 lares com capacidade para 60 idosos, serviço de apoio domiciliário (100 utentes), centro de dia (com capacidade para 50 pessoas), duas unidades de cuidados continuados (45) e uma ala para os mais pequenos, com creche, pré-escolar e sala de estudo, para um total de 70 crianças.

O período de pandemia que vivemos tem obrigado à tomada de medidas preventivas para tentar evitar a ocorrência de surtos. Uma delas foi o encerramento do centro de dia, passando o apoio aos utentes que dele necessitem a ser feito em regime domiciliário.

Os procedimentos que tiveram de ser feitos “implicam um custo elevadíssimo para a instituição, ao nível da compra de material de proteção individual, obras de adaptação e do reforço dos meios humanos”, diz João Amado.

O médico/provedor mostra-se moderadamente otimista com a possibilidade de, a curto prazo, vacinas contra a Covid-19 ficarem disponíveis. Se forem eficazes, “provavelmente, poderemos estar, nesta altura, a passar pela pior fase da pandemia”. No entanto, “há ainda muitas incertezas, não sabemos, por exemplo, quanto tempo dura a imunidade ou quais serão os efeitos secundários das vacinas”.

Em face disso, “não podemos baixar a guarda, nem deixarmo-nos seduzir por discursos negacionistas, que são perigosíssimos”. João Amado percebe que “as pessoas têm muita vontade de voltar à sua vida normal, mas agarrarem-se a este tipo de disparates é o pior que podem fazer”.

(Segunda parte de uma reportagem com João Amado. O texto foi originalmente publicado no Portimão Jornal, que pode ler na versão impressa ou online aqui . Também pode ler a 1ª parte da reportagem aqui)

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