As ‘guerras’ antigas do comércio portimonense contadas por João Antunes – 2ª parte

(2ª parte de uma reportagem com o antigo dirigente associativo João Antunes. Leia a 1º parte aqui)

João Antunes foi um dos presidentes da Associação Comercial de Portimão, que, constituída em 1976, atravessou diversas fases e enfrentou muitos desafios. Um deles foi a tentativa de ver o ‘seu território’ invadido por outras associações, em especial, a Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve (ACRAL).

Na altura foram realizadas algumas reuniões para preparar posições e iniciativas conjuntas, mas o dirigente da associação portimonense diz ter ficado convencido de que, para além de terem ideias diferentes sobre alguns dos temas de maior interesse para o setor, o que efetivamente a ACRAL queria era “entrar em força em Portimão e fazer acordos com a Câmara, de forma a dar a volta à difícil situação financeira em que se encontrava, tudo isto em prejuízo da ACP e dos comerciantes locais”.

Daí que, anos mais tarde, já depois de ter deixado de ser dirigente reagiu com grande veemência à notícia de que havia intenção por parte de dirigentes das duas entidades de formarem uma ‘super-associação’, envolvendo ACRAL e ACP.

No entanto, frisa, não era adepto do ‘orgulhosamente sós’ e lembra que passou muito tempo em reuniões com elementos de outras associações não só do Algarve como do resto do país, de forma a tentar, em conjunto, encontrar formas de apoio ao comércio local.

Para além de matérias diretamente relacionadas com o setor, João Antunes também se envolveu noutras batalhas mais abrangentes, como a do traçado da auto-estrada para o Algarve. O objetivo, que foi conseguido, era o de “impedir que fosse construída, como alguns pretendiam, através da Serra do Caldeirão e terminasse numa zona situada mais perto de Loulé e Faro”. Graças às iniciativas tomadas por diversas associações e pela sociedade civil, foi possível convencer o Governo a optar pelo “corredor natural, o que melhor serve os interesses da região no seu todo e, em especial, os do Barlavento”.

Impedido de votar por apoiar Humberto Delgado

Apesar do entusiasmo que coloca em todos os temas que digam respeito a Portimão, João Antunes não é natural deste concelho. Nasceu há 85 anos, em Sobrainho dos Gaios, uma pequena povoação situada perto de Proença a Nova, no distrito de Castelo Branco.

No entanto, logo aos 15 anos de idade partiu para Angola, tendo-se fixado em Benguela, onde o pai instalou uma empresa de pesca. Foi nessa terra longínqua que “estudei, aprendi a ser homem, criei boas amizades e constitui família”. De uma forma geral, foi “uma vida feliz”, recorda.

Ao longo de 24 anos assistiu a um enorme desenvolvimento daquela cidade, graças à instalação e desenvolvimento de grandes indústrias, originalmente ligadas à pesca, mas que aos poucos arrastaram muitas outras áreas.

Começou a trabalhar enquanto ainda tirava o curso comercial num colégio privado, primeiro no negócio da família e depois noutras empresas, uma das quais a Companhia Geral de Angola. Mais tarde fixou-se na Cardoso & Companhia, que à atividade da pesca juntava a do fabrico de farinha e óleo. Tratava-se de uma empresa de grande dimensão que “tinha capacidade para tratar várias toneladas de peixe fresco por hora”.

João Antunes diz que a população da cidade era “muito dinâmica e empreendedora”. Quando chegou “havia apenas quatro telefones, as ruas não eram asfaltadas, não existia ensino público, mas graças à dinâmica das pessoas, em poucas décadas tudo isso mudou e Benguela criou todas as infraestruturas que uma grande cidade deve ter, incluindo um aeroporto, cuja construção foi, numa primeira fase, financiada pela própria população”.

Até ao nível político havia uma abertura pouco comum, tendo, em 1958 sido criado um grande entusiasmo à volta da candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República. João Antunes também se envolveu nesse movimento, o que teve como consequência que “não me deixassem inscrever nos cadernos eleitorais, o que me impediu de votar”.

O governador ordenou que as urnas fossem transportadas para o seu palácio onde seriam abertas no dia seguinte. Desconfiada, a população não deixou, os votos foram contados no local e “deram a vitória, por larga margem, ao General Sem Medo”.

Incêndio na loja

João Antunes saiu de Benguela oito dias antes de ser declarada a independência de Angola. A mulher, que estava grávida, tinha vindo para Portugal uns meses antes.

Diz não ter sido perseguido nem ter tido problemas graves, aquando da guerra pela Independência, pois na zona “os conflitos eram mais entre a UNITA e o MPLA”. Os dois movimentos estavam instalados em locais diferentes da cidade e, por vezes, as balas que dirigiram uns aos outros passavam bem perto da sua casa.

De regresso a Portugal, inicialmente instalou-se em Viseu, onde já estavam a mulher, Maria Gabriela (Gaby), e os filhos. Com pouco dinheiro nos bolsos, houve que rapidamente encontrar trabalho. A esposa começou a dar explicações de inglês e “eu arranjei emprego numa empresa de materiais para a construção civil”.

Mas, habituado a outro clima, confessa que “não aguentava o frio, estava desejoso de viver noutra terra mais quente” e quando surgiu a hipótese de vir trabalhar para Portimão não pensou duas vezes, até porque era uma cidade que lhe fazia lembrar Benguela.

Desenvolveu a sua atividade profissional em várias empresas antes de instalar o seu próprio gabinete de contabilidade, primeiro na Rua da Hortinha e depois na Rua Direita.

Mais tarde, a família ficou com uma loja situada na Praça Visconde Bívar, onde passou a vender, numa primeira fase, artigos de artesanato e, posteriormente, malas e acessórios que tinham grande aceitação sobretudo entre os turistas alemães, norte-americanos e canadianos. O sucesso levou a que adquirissem uma segunda loja, esta na Rua Direita, que foi considerada por uma revista de turismo americana como “a melhor do género em Portugal”.

Mas nem tudo foram ‘rosas’, pois aquele espaço foi destruído por um incêndio, em 2001, situação que levou a que João Antunes acabasse por se demitir da Associação Comercial de Portimão, de forma a ter mais tempo para recuperar do revés.

Hoje, já afastado das lides profissionais, o antigo dirigente não esconde a mágoa pela evolução que a ACP teve na fase final, que acabaria com a sua extinção, em 2013. No ano passado obteve autorização do proprietário da antiga sede para aí se deslocar e ficou desolado com o estado em que se encontra. Ainda conseguiu recuperar alguns documentos que entregou ao Museu de Portimão para que, pelo menos uma parte da memória não se perca.

(1ª parte de uma reportagem originalmente publicada no Portimão Jornal, que pode ler na versão em papel ou online, aqui)

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