Opinião

O monstro da Torraltinha

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logo_opiniaoNunca é por demais realçar a beleza de uma cidade ou de uma natureza que rodeia as terras de Lagos. Quem percorre as suas ruas, observa o seu urbanismo, admira o seu património ou se extasia com a sua paisagem fica deslumbrado com tudo o que este território tem para oferecer e com a forma como a mão humana, ao longo de séculos, o tem preservado, o tem valorizado e o tem legado às gerações vindouras.

Mas, nesta terra de sonho e fantasia, a mão humana também tem sido semente de destruição e de descaracterização deste nosso património ambiental, urbano e natural. Basta observar as últimas décadas e verificar como a adulteração invadiu significativas parcelas do território de Lagos. Foi o que aconteceu quando a cidade cresceu e galgou as suas muralhas. Essa expansão, a caminho da Ameijeira, deixou prédios amontoados, sem qualquer harmonia e de altimetrias que nada tinham a ver com a dignidade daquele lugar. É o caso da urbanização que cresceu e se desenvolveu em torno dos correios. As ruas que se vieram a rasgar apenas tiveram lugar por entre os espaços livres dos prédios.

Esta adulteração teve continuação com a entrada da Meia Praia. Outro espaço difícil de se igualar vir-se-ia a adulterar com uma urbanização desencontrada e completamente alheada de um local como aquele. E outras, que tiveram lugar, pareciam estar apostadas em descaracterizar aquele pedaço de mar.

Para se espalhar estas manchas negras pelo território adiante, não se teve em conta aquele vale deslumbrante de Porto de Mós. Esta nova arremetida, mais perto de nós, far-nos-ia estarrecer quando nos começamos a aperceber do que aí estava a acontecer. Era caso para se dizer que nada se conseguiu apender com os erros do passado. E, assim, aquele vale nascente começou a ser ocupado de uma forma anárquica e com tais índices de construção que levaram à sua completa aniquilação. E, agora, para mal da paisagem urbana e natural de Lagos, temos por lá um panorama confrangedor e que nos levaria a pensar que esses erros não iriam ter continuidade na nossa cidade.

Não havia necessidade

Mas, infelizmente, os vícios de sempre continuam presentes e a fazer-se sentir de uma forma que não seria de admitir nos tempos que correm. É o que acontece na zona da Torraltinha. Trata-se de um espaço residencial que, há décadas, se começou a erguer com vivendas e outras urbanizações que obedeciam a determinados padrões.

Por norma, os pisos não iam além do segundo andar, a sua volumetria não agredia a zona envolvente e estava em harmonia com a restante e com o meio ambiente. Mas, de repente, começam-se a ver grandes escavações, mesmo no seu alto, e um volume de construção em nítida agressão com tudo o que estava em seu redor. E, à medida que subia mais, agredia as vivendas e demais construções que estavam nas suas imediações. Muitos perguntavam como é possível que técnicos avalizassem e que políticos aprovassem um mostro como aquele.

Mas ele aí está a crescer e a comprar o espaço em redor. Foi o que aconteceu com três parcelas pertencentes ao domínio público e confinantes com o prédio. Uma delas, já com piscina construída, só foi adquirida à posteriori, segundo afirmaram membros da Assembleia Municipal.

Sobre as duas restantes, e também confinantes com duas vivendas, houve a intenção desses moradores também apostarem na sua aquisição ou na sua manutenção como espaço público e usufruído por todos. Mas, para seu espanto, embora junto da Assembleia Municipal manifestassem a sua pretensão, verificaram que essas parcelas do domínio público já estavam encaminhadas para serem vendidas ao monstro em construção.

E assim veio a acontecer sem sequer se avalizar as pretensões dos moradores em usufruir ou em adquirir esses espaços que eram de todos. Se o processo de alienação desses espaços ao monstro em construção, com a oposição dos moradores confinantes, já é desconcertante, ainda mais nos consegue chocar quando, ao fim da sessão da Assembleia Municipal, vemos membros que acabaram de votar irem, com grande alegria, abraçar o construtor que se deslocara àquela assembleia.

Conforme diz o ditado popular, à mulher de César não basta sê-lo; é preciso também parecê-lo. Se todo o processo já deixa muito a desejar, atitudes como aquelas criam a impressão de um misto de promiscuidade e de cumplicidade. E conforme dizia o humorista, não havia necessidade; nem daqueles índices de construção nem deste enviesado processo de alienação.

(Opinião – Zé de Lagos)

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