Ainda os ecos das Autárquicas de Lagos – Os cacos da oposição

Há anos que o PS vem liderando e gerindo os destinos da autarquia de Lagos. Apenas com a interrupção do consulado de José Valentim, os socialistas sempre se impuseram e tiveram a palavra dominante neste que é o principal município das chamadas Terras do Infante. Mas para além de qualquer eleição autárquica que acabe por acontecer, quase todas as demais dão, também, a vitória ao PS.

Com este quadro sociológico por pano de fundo, os socialistas, em Lagos, têm vindo a governar e nem sempre em sintonia com o sentimento da população e com o que o município exigiria. Basta recordar, nos anos oitenta, essa Ameijeira desordenada e que parece ter sido levantada sem um plano condutor e sem respeitar os pergaminhos de uma cidade secular. E, agora, já bem mais perto de nós, temos esse vale nascente de Porto de Mós que é um atentado à harmonia e ao equilíbrio de uma cidade a exigir qualidade de crescimento e de expansão.

Mas se estes são vícios que perduram no tempo a manchar o urbanismo de Lagos e com marca PS, mais recentemente algum divórcio tem acontecido e, no mínimo, tem distanciado o simples cidadão de dar a sua participação na causa pública de Lagos. Esse distanciamento de tudo o que tem a ver com os nossos decisores políticos encontra explicação na forma desleixada com a cidade tem vindo a ser governada. O ambiente, traduzido na higiene e limpeza da cidade, tem-se vindo a deteriorar e não há meio de o melhorar. Os espaços públicos, constantemente a exigir manutenção, evidenciam uma constante degradação. E sem falar em grandes realizações, era de se exigir da gestão do dia a dia uma qualidade redobrada para que a cidade continue a ser apreciada.

Traçado este retrato que se poderia ampliar, era de supor que, pelas autárquicas, o PS viesse a ser penalizado ou, no mínimo, reduzida a sua votação e enfraquecido o seu poder de decisão. Mas, contra os que assim poderiam pensar, os socialistas acabaram por se reforçar e até por reduzir as demais forças políticas a uma representação que minimiza a sua expressão no quadro autárquico de Lagos.

Tudo acontece porque a oposição, na sua fraqueza, revelou bastante desnorte, amadorismo maior e um sentido de que este acto eleitoral estava irremediavelmente perdido. Só assim se poderá explicar algumas opções que o PSD foi buscar fora de portas. Quando estava à vista de todos o caminho do seu suicídio político, o PSD teimava em acenar com um trunfo eleitoral que se revelaria fatal; fatal para a sua imagem e para a sua credibilidade política. E nestas jogadas de bastidores se perderam e se esqueceram do seu verdadeiro programa político.

Sem seduzir, acabaram por desiludir os que, mesmo com militância ou ideal partidário, decidiram fugir e ir votar em projecto político contrário. A sua presença na Câmara, reduzida a um só vereador, acaba por ser humilhante e exigir consequências para todos os que estiveram à frente de um processo com resultados tão desastrosos.

Se o PSD se perdeu na miragem da sua estratégia, desde o início, irremediavelmente perdida, as demais forças políticas, sem qualquer renovação, arrastaram-se num cinzentismo que as contagiou e lhes retirou qualquer capacidade de seduzir e de reunir em seu redor o seu eleitorado de sempre. Foi o que se viu com a CDU. Sem pôr em causa a bondade e a capacidade da sua cabeça de lista, não aparecia como uma figura carismática que chamasse a reunir e a galvanizar essa fatia de eleitorado que, com fidelidade, cerra fileiras em torno do seu mundo de sempre. E um vereador para a CDU costuma já ser um resultado para agrado até das suas hostes internas. Mas não foi o que aconteceu. Tudo se perdeu. Resta ao eterno número um à Assembleia Municipal – juntamente com mais um elemento – ter entrado apesar de não ter travado o sentido descendente desta força política por terras de Lagos.

Mas se o cinzentismo da CDU é evidente e os seus métodos de actuação, por precaução, se afastam da novidade que o mundo de hoje requer, também o Bloco de Esquerda se acomodou e se deixou arrastar pelos vícios das demais forças políticas. E o problema tende a acentuar-se quando vemos um Bloco unipessoal e, desta forma, entregue, na sua imagem pública, a um só referencial. Uma força de protesto como esta, em Lagos, tem aceitação. Mas desde que haja quem a saiba liderar e responder aos anseios da população.

Não é por acaso que uma força política saída do nada, após uma campanha inovadora e aguerrida, tivesse conseguido uma votação expressiva. Agora, com os vícios dos demais, o Bloco, acomodado e agarrado à imagem que lhe é dada a nível nacional, esquece qualquer tipo de intervenção e todo o trabalho político que deveria fazer a nível local. E, por isso, para este partido, em Lagos unipessoal, já foi uma proeza a sua representação na Assembleia Municipal.

PS dominante e uma oposição com um resultado quase humilhante

E com a oposição reduzida à representação mínima nos órgãos autárquicos de Lagos, restam os independentes do “Lagos com futuro” que, há quatro anos atrás, fizeram furor e, agora, parecia que não repetiriam a mesma proeza. Apesar de terem sido os únicos, na oposição, a agitar as águas paradas do nosso pântano político, não era de crer que essa proeza passada viesse a ser, de novo, alcançada.

Mas o seu trabalho, com exagero e descoordenação, teve algum reconhecimento por parte da população; ao ponto de ter conquistado, de novo, um vereador e de passar a ser a terceira força política de Lagos. Se continuar a marcar a agenda política e acrescentar método e credibilidade à sua actuação, poderá mesmo vir a morder os calcanhares ao PSD e, quem sabe, até o ultrapassar. Basta para isso que o partido laranja continue a trilhar os mesmos caminhos e a actuar como o fez ao longo desta última campanha.

O PAN, que parecia que corria por fora de umas eleições como estas, veio a surpreender e acabou por vir a ter, a nível local, representação na Assembleia Municipal. E a sua campanha não se viu nem sequer se sentiu. Obviamente que a sua sigla está em ascensão e a actuação do seu representante no Parlamento tem-lhe dado alguma visibilidade que, neste caso, também viria a transferir-se para os seus representantes em terras de Lagos. E quase sem os conhecer, os votantes, a nível local, acabaram por eleger um membro do PAN para a Assembleia Municipal.

E, assim, com a nova geografia do quadro autárquico de Lagos, vemos um PS dominante e uma oposição com um resultado quase humilhante; a ponto de, enquanto a oposição trata de reunir os cacos a que ficou reduzida, os socialistas correrem o perigo de alguma soberba. E, neste caso, enquanto a oposição lambe as suas feridas, a prepotência dos vencedores podê-los-á  dominar e retirar a lucidez suficiente para poderem responder  aos desafios de uma cidade exigente e que requer a conquista da sua qualidade, do seu asseio, da sua beleza e da identidade que a enobrece e a enaltece. E, para isso, os vitoriosos terão de dar mostra que souberam vencer enquanto os derrotados terão de saber reunir os seus cacos para se começarem a erguer.

(Guedes de Oliveira)

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