Pandemia obriga a repensar o panorama da saúde algarvia

Nunca como hoje a saúde foi objecto de tanta atenção e, nunca como hoje, mobilizou e bateu com tanta premência à porta de cada um.

As notícias que, hora a hora, nos trazem pela porta dentro os profissionais que, constantemente, tudo fazem para nos salvar são um exemplo do melhor que a humanidade, em tempos tão tumultuosos, nos pode mostrar. 

Mas se a saúde com os seus profissionais é um manancial a perseverar, este é um caminho que, em tempos como este, se terá de repensar. E se pelo país adiante estamos perante uma realidade de valia inegável mas a exigir que se venha a melhorar, pelo Algarve adiante essa reflexão é cada vez mais premente. 

Basta dizer que uma região com uma extensão de mais de 150 quilómetros de comprido e com uma população que, pelo verão, vai acima de um milhão e meio de utentes, conta apenas com um hospital central e com um apoio de retaguarda que vai sendo esvaziado e meio abandonado como é o caso do Hospital do Barlavento.  

É evidente que o Algarve, em termos de saúde, está muito mal servido

Se o Hospital Central do Algarve, pomposamente designado por Centro Hospitalar Universitário do Algarve, não passa do hospital alargado de Faro que atende toda a região, é caso para se perguntar onde, entre nós, se poderá encontrar um hospital de referência como o São João ou o Santo António, no Porto; isto para nos situarmos apenas a nível regional sem irmos ou atravessarmos os caminhos da capital.

É evidente que o Algarve, em termos de saúde, está muito mal servido. E assim continuará a estar enquanto não tivermos personalidades com peso político capazes de alterar a situação e de encarar com realidade e visão de futuro a saúde da região.

Apesar de dispormos de três secretários de estado, sendo um deles da saúde, falta-lhes aquela dimensão capaz de os transformar nos anseios e nos porta-vozes dos problemas do Algarve. O mesmo se passa com os nossos autarcas. Apesar de Isilda Gomes se destacar, falta essa voz de comando e de independência capaz de emergir e de, com eficácia, se fazer ouvir.

Sem esses porta-vozes, no que à saúde diz respeito, o Hospital do Barlavento foi sendo esvaziado das suas valências e transformado numa espécie de apêndice do Hospital de Faro. A prova está nessa situação caricatural de, em plena pandemia, se retirar os três doentes ventilados da Unidade de Cuidados Intensivos para o Hospital de Faro. E o motivo foi o da sua degradação exigir obras de imediata reparação; ao ponto das macas não poderem circular e do piso esburacado não permitir que, em segurança, lá se pudessem cuidar. 

Uma carta de saúde para o Algarve

Tendo por base também a própria economia, é tempo de dotar o Algarve de uma carta de saúde a implementar no curto e médio prazo. Essa carta contemplaria obrigatoriamente dois hospitais centrais de referência. Um serviria prioritariamente o Barlavento, sediado em Portimão, e outro o Sotavento, sediado em Faro.

Com todas as valências e de qualidade, seriam um ponto de atração, particularmente na época baixa, de turismo de terceira idade. E para os apoiar, essa carta deveria ainda contemplar mais três hospitais, de média dimensão, que funcionariam como unidades de retaguarda ao longo de toda a região. Um situar-se-ia em Lagos, outro em Albufeira e o terceiro em Tavira. 

É verdade que seria um investimento avultado. Mas os dois, relacionado com a faculdade de medicina, acabariam por atrair muitos candidatos à formação e de fixar muitos profissionais na região.

Com esta carta de saúde a funcionar, acabar-se-ia por incrementar um turismo sénior que viria quebrar a sazonalidade e, em termos económicos, trazer outra rentabilidade ao nosso ano turístico. Mas para essa atração é fundamental que a saúde apresente um leque alargado e de qualidade ao longo de toda a região. 

Haverá uma voz com autonomia e com força política capaz de reivindicar a nível nacional e de fazer avançar a nível regional uma carta de saúde com estas características?

É urgente repensar a saúde da região

Além da projeção que se lhe poderia dar para atrair um determinado turismo na época baixa e de, em qualquer altura do ano, ser sempre fator de atração, seria um elemento preponderante e fundamental para vir dar resposta aos problemas de saúde da população.

E este é o problema número um. Enquanto nada se fizer, qualquer doente urgente de Sagres terá de percorrer cerca de cento e vinte quilómetros até ser atendido no Hospital de Faro.

E esta, aliada a muitas outras, é uma situação que, mesmo em termos de economia e de assistência, não é nada favorável à saúde algarvia. Por isso, em tempos de pandemia e quando a saúde ganha maior visibilidade, é urgente repensar a saúde regional e através dela, além do serviço à população, poder-se inclusive dar um contributo à própria economia regional.

Mas, para isso, são precisas vozes a nível regional que se façam ouvir e que, com o seu peso político, consigam abalar a monotonia em prol da saúde e da própria economia algarvia 

(Opinião, Guedes de Oliveira)

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