João Vasconcelos quer que o transporte urbano de Portimão seja gratuito (entrevista, parte 2, com vídeo)
Segunda parte da entrevista ao candidato da coligação «Unidos por Portimão», que junta o Bloco de Esquerda e o Livre, à presidência da Câmara de Portimão. Pode, também, ler aqui a 1ª parte.
Algarve Marafado (AM): Que outras ideias concretas tem para minorar os problemas de trânsito na cidade?
João Vasconcelos (JV:) Por exemplo, como há pouco lhe disse, nós defendemos um plano de mobilidade urbana com sustentabilidade.
Defendemos que os transportes públicos devem ser remodelados, ecológicos e gratuitos. Isto não é uma novidade, já se passa noutros concelhos, no de Cascais desde 2020 e este ano há 12 município do Oeste que também passaram a ter transportes públicos gratuitos.
Isso fará com que as pessoas passem a utilizar mais os transportes públicos e deixem os automóveis e é isso que pretendemos.
AM: De qualquer forma, haverá sempre carros dentro da cidade. Há largas centenas que ficam estacionados em terrenos que não são propriamente parques, são espaços privados e, um dia destes, os seus donos podem dizem que não querem ali viaturas. Como é que acha que se resolve este problema?
JV: Isso tem a ver com aquilo que não foi feito nos últimos tempos, sabendo-se que isto ia acontecer, mais dia, menos dia. Onde estão os silos de estacionamento automóvel? Existem dois parques subterrâneos, bastante caros. Portanto, é necessário que a câmara pense a esse nível, criando silos automóveis a preços acessíveis, o que é uma das possibilidades para minorar esses problemas.
Leia aqui a 1ª parte da entrevista
AM: A nível económico, o que é possível fazer para que Portimão deixe de estar tão dependente do turismo?
JV: Portimão e não só, todo o Algarve, vive quase exclusivamente da atividade turística, para o bem e para o mal.
O turismo é uma área importante, a coligação de que sou o porta-voz defende-o. No entanto, entendemos que se tem privilegiado, de forma excessiva, essa atividade em detrimento de outros sectores económicos.
Terá de haver uma complementaridade dos vários sectores e, quando tivemos o Covid, a região que mais problemas e dificuldades teve, a nível social e económico, foi exatamente o Algarve, por viver exclusivamente da atividade turística.
E há responsáveis, a este nível. São os partidos, PS e PSD, que têm estado a gerir grande parte das câmaras da região ao longo de muitos anos. É necessário que haja diversificação económica, que se atraiam investimentos noutras áreas, ao nível do comércio, da agricultura, das pescas, das novas energias. É preciso dar passos nesse sentido, até concedendo incentivos fiscais a essas empresas, porque o turismo é importante mas nem só de turismo podemos viver.
Penso que, se calhar, não se aprendeu nada com o Covid, mas as crises existem, provavelmente, daqui a uns anos – esperamos que não – teremos outra crise e esta região irá sofrer bastante.
Contra a construção de mais grandes projetos imobiliários na Praia da Rocha
AM: Quando se fala em turismo no concelho fala-se essencialmente da Praia da Rocha. Apesar de já ser uma espécie de selva de betão, continuam a estar previstas muitas torres, apartamentos e hotéis para ali. Imagine que ganhava as eleições, se fosse possível, acabava com a construção na Praia da Rocha?
JV: Não direi acabar com a construção, mas, de facto, a Praia da Rocha está superlotada de construção. É muito betão, não foram construídas infraestruturas adequadas para ter em conta essas construções e o trânsito que delas resulta.
Se formos eleitos, como espero, iremos envidar todos os esforços para que não haja a construção de projetos imobiliários que irão degradar ainda mais a qualidade de vida dos portimonenses.
Até, inclusivamente, uma zona, na última janela virada para o mar, que é a de João D’Arens, se queria construir três hotéis em plena falésia. Felizmente temos, na nossa coligação, candidatos que se bateram para que esses projetos não fossem em frente, mas o plano ainda não morreu.
Leia aqui a 1ª parte da entrevista
Dinamizar o centro comercial
AM: No que diz respeito ao comércio local, que propostas tem para dinamizá-lo?
JV: Ainda há pouco frisei que Portimão é um dos concelhos onde mais área de grandes superfícies tem a nível europeu. Isso, sem dúvida, contribuiu para o definhamento do comércio local.
Também não tem havido uma atenção da parte da câmara relativamente aos nossos comerciantes. Existem, ou pelo menos existiram no passado, associações de comércio, se calhar, é preciso procurá-las, fazer projetos com elas para dar mais vida à cidade, atraindo atividades culturais, criando um gabinete que possa ouvir as reivindicações dos nossos comerciantes.
O comércio é uma área importante, faz parte da matriz de Portimão e, realmente, é uma pena quando visitamos a zona comercial e reparamos que está às moscas.
Para além disso há muitos edifícios comerciais estão fechados e degradados, o que dá uma péssima imagem à cidade. É necessário dar a volta a essa situação e tornar o centro da cidade atrativo, recuperando-o através da dinamização dessas atividades.
Expropriar o Convento de S. Francisco
AM: O Convento de S. Francisco está, há muitos anos, a cair. Em tempos falou-se que a câmara iria pedir ao Governo para expropriar aquilo. Acha que essa deve ser a solução?
JV: Sim, essa é uma das propostas que a coligação tem. Que haja uma negociação com os proprietários e, se o preço for exagerado, a câmara tem de envidar esforços junto do Governo para a sua expropriação.
É um imóvel que está classificado e é lamentável a forma como se encontra há muitos anos, completamente degradado, muitas peças foram furtadas e é preciso prover essa situação porque em Portimão esse tipo de património não é muito. Aquilo que existia também ficou à incúria dos governantes locais e é necessário dar passos nesse sentido e também a outro nível patrimonial.
Por exemplo, a antiga adega cooperativa de Portimão está fechada, o que não se compreende. O seu autor é um homem bastante conhecido, António Vicente de Castro, que foi um dos grandes introdutores no Algarve do movimento modernista.
Esse é um património importante que nós temos e defendemos que se crie aí um núcleo museológico dedicado ao vinho e à vinha e a esse grande arquiteto.
Por outro lado, o edifício onde hoje existe o Lar da Criança também é da sua autoria. Já sofreu obras de remodelação, aquilo está um pouco adulterado, mas não se deve permitir que haja mais adulteração.
As Ruínas da Abicada também precisam de ser requalificadas, a Fortaleza da Praia da Rocha igualmente, portanto, é necessário salvaguardar esse património e valorizá-lo, pois faz parte da nossa memória histórica.
Leia aqui a 1ª parte da entrevista
O Chega vive das fake news e da manipulação de vídeos
AM: Como é que vê a evolução política nacional dos últimos anos, com os partidos de esquerda – com exceção do Livre – a caírem e, em sentido contrário, um partido considerado de extrema-direita, o Chega, a subir de tal forma que já é o segundo com mais deputados no Parlamento?
JV: Nós vamos fazer uma campanha pela positiva, não vamos criticar pessoas, vamos criticar ideias e o nosso combate é pela defesa dos direitos humanos, da igualdade e pelo combate aos discursos de ódio, ao racismo e à xenofobia.
Sabemos quais são os alimentos do Chega: as fake news, uma parte da comunicação social, nomeadamente, a nível televisivo e manipulação de vídeos.
Os partidos que têm estado no poder – PS, PSD e até o CDS – também não foram de encontro às reivindicações das populações e aqueles que protestam, que gritam mais alto, que apresentam soluções que nunca irão cumprir, que manipulam as redes sociais, acabam por ter uma certa recetividade.
Mas estou consciente que grande parte das pessoas que votam no Chega não são de extrema-direita, longe disso, não são racistas nem salazaristas e nós também estamos recetivos e as nossas propostas vão ao encontro dessas pessoas para que votem em nós porque não são soluções populistas que vão resolver a situação em Portimão.
Até porque já temos um historial, não só em Portugal como até a nível europeu, que nunca deram bons resultados quando as pessoas apostaram no cavalo errado. Depois, quando quiseram acordar já foi demasiado tarde.
Estamos conscientes que outras épocas mais esclarecidas, de maior liberdade, direitos humanos e tolerância irão surgir, mais dia, menos dia, e é para isso que lutamos.
Leia aqui a 1ª parte da entrevista
AM: O Chega, nas últimas Legislativas, teve em Portimão mais de 11 mil votos. Não receia que ganhe a câmara?
JV: Não, penso que não. Muitas pessoas votarão nesse partido, mas muitas outras não querem paraquedistas na nossa cidade e, por outro lado, pouco a pouco, as pessoas vão vendo que esses partidos não têm soluções para o Pais, a cidade e o concelho.
É mais do mesmo, até porque muitas dessas pessoas do Chega vêm de partidos como o CDS e PSD. Relativamente às portagens na Via do Infante nunca se viu um deles alguma vez levantar o dedo para acabar com elas.
Agora é que vêm arvorar-se donos dessa situação, mas as pessoas sabem quem é que lutou ao longo destes anos todos para acabar com as portagens no Algarve e há outras situações similares.
Estou consciente que a coligação Unidos por Portimão irá ter um bom resultado, inclusivamente, atraindo pessoas dessa área e de outros quadrantes políticos.
“Até parece que estamos aqui a construir uma nova Portimão Urbis”
AM: Para concluir, para além dos temas que falámos, quais são as outras duas ou três prioridades da sua coligação?
JV: É necessário que haja o alargamento das salas gratuitas municipais de creches, jardins de infância e ATL’s, que é uma grande dificuldade que as famílias de Portimão têm. Há quem tenham de ficar em casa com as crianças ou deixá-las com os pais porque não conseguem pagar infantários e creches privadas.
Na vertente da educação, também defendemos a construção de mais dois edifícios escolares, um para o1º ciclo e pré-escolar e outro para o 2º e 3º ciclos.
É preciso que a Casa da Juventude seja efetivamente construída, dotada de várias valências, é uma das promessas que a câmara tem feito ao longo dos anos e nunca concretizou e que sejam dados os passos finais para a construção do novo edifício para a PJ de Portimão.
Outra das nossas propostas é que sejam progressivamente internalizados na câmara trabalhadores e serviços.
Não se compreende que empresas cujo objeto inicial são os resíduos e abastecimento de água tenham outras funções na gestão e prestação de serviços de âmbito educativo, do estacionamento, da publicidade, do serviço social, do TEMPO, dos centros comunitários…
Até parece que estamos aqui a construir uma nova Portimão Urbis e já sabemos o resultado a que essa empresa conduziu Portimão, a um dos maiores endividamentos de que temos memória, até a nível nacional.
Leia aqui a 1ª parte da entrevista
Assista aqui ao vídeo:









