As consequências da irresponsabilidade

Com o verão aí mesmo a chegar, Lagos preparava-se para, com sucesso, enfrentar mais uma época balnear.

Ao contrário dos anos anteriores, este verão, com toda a sua movimentação, teve que se atrasar e julho preparava-se para inaugurar esta época alta do nosso turismo. E tudo parecia correr tranquilamente, apesar de se sentir ausência de medidas de fundo de preparação e tudo um programa que fizesse frente a estes tempos de excepção.  

Mas mesmo com ausência de medidas por tomar, tudo parecia correr de feição e, no caso de Lagos, era mesmo um território praticamente sem covid 19 e para onde valia a pena vir por aqui se sentir, em termos sanitários, a segurança e a confiança que estes tempos sempre requerem. E como junto de nós Aljezur e Vila do Bispo são territórios por onde o vírus nunca passou, então esta zona do Algarve passou a ser um território de eleição.

E muitos já o estariam a eleger para, com segurança, aqui poderem passar umas férias tranquilas nestes tempos agitados e que tanta preocupação causam à saúde e à economia de cada um. Mas, de repente, uma irresponsabilidade acaba por deitar tudo a perder e pôr em causa algum trabalho que se vinha a fazer.

É tempo para repensar muito do que, em termos de prevenção, se tem andado a fazer

Custa mesmo a compreender como é que nestes tempos de excepção que estamos a viver se acabe por ceder um espaço público para uma festa com alguma dimensão se poder realizar e para, sem regras, lá dentro, se começar a dançar. Quando a polícia é alertada para intervir, embora o fizesse com prontidão, a sua intervenção em tais arraias acaba por ser tarde demais.

Foi o que aconteceu no Clube Desportivo e Recreativo de Odeáxere. A dispersão aconteceu mas a propagação do vírus não se evitou. Além de algumas dezenas de pessoas infetadas, o nome de Lagos começou-se a espalhar como um espaço a evitar. E as consequências são desastrosas para a nossa salubridade e para a sustentabilidade do nosso turismo. Se há dias atrás eramos um destino de eleição, agora passamos a ser um território riscado das preferências de quem nos elegia e nos preferia como seu destino de férias.

Com todo o mal que se acaba de fazer à saúde, à economia e ao bom nome de Lagos, é tempo para repensar muito do que, em termos de prevenção, se tem andado a fazer. Não é compreensível que se deixe ao livre arbítrio de uma pessoa, seja ela presidente da direcção do clube ou secretária da Junta de Freguesia, uma decisão, em tempos como estes, de tamanha dimensão. Para além das diretrizes, mais ou menos difusas a nível nacional, é forçoso haver orientações e determinações precisas a nível local e regional. 

Carta de orientação

No que ao Algarve diz respeito, até dispomos de um representante governamental. Mas, até hoje, pouco se sente a sua intervenção a nível regional.

E era já tempo de dispormos de uma carta de orientação que tivesse a ver com as diferentes facetas da vida da região. Começaria com a recepção de qualquer visitante que chegasse ao aeroporto de Faro.

Além das boas vindas que se lhe deveria dar, seria fundamental testar e até monitorizar a sua passagem por estas terras constantemente a convidar par o seu sol e para o seu mar. Também a coordenação com o estabelecimento turístico de hospedagem seria o passo seguinte a dar para, além da confiança a transmitir, podermos ter na mão o controlo da situação.

Outra das coordenações e trabalho conjunto da equipa regional, a qual obviamente englobaria as estruturas de saúde, seria com cada câmara municipal. E são dezasseis ao longo de todo o Algarve. Estas, como responsáveis pela proteção civil a nível local, deveriam implementar normas e sistemas de coordenação que protegessem toda a população e projectassem o bom nome da região.

Consequências negativas para a imagem e economia de Lagos

Foi o que não aconteceu no Centro Desportivo e Recreativo de Odeáxere. E tudo porque não havia normas e orientações bem específicas e determinadas que impedissem alguém que, com o seu voluntarismo, entrasse em aventuras difíceis de compreender e de tolerar numa situação como a que vivemos. E os resultados são os que estão à vista de todos.

Por isso, embora tardiamente, a Câmara Municipal, através dos seus serviços de Proteção Civil e em diálogo com as estruturas de saúde, deveria pôr essa carta de pé com determinações e orientações para todas as instituições e demais estruturas da sociedade civil.

Para além das juntas de freguesia, colectividades desportivas, culturais ou simplesmente recreativas, escolas, organismos ligados ao turismo, sejam hotéis ou simples alojamentos, deveriam possuir uma carta de orientação com o que poderiam ou não fazer e como proceder em alguma situação mais problemática. Sem essa orientação, cada um faz o que quer.

E escusado será falar-se, agora, em irresponsabilidade apenas de um quando a raiz do problema está na falta de prevenção. E as consequências, para a imagem e a economia de Lagos, vão atravessar todo o verão. 

(Opinião, Guedes de Oliveira)

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