O tempo em que havia combate político a sério

Ilídio Martins foi um dos fundadores do PSD em Portimão e dos primeiros a entrar naquela que foi, durante muitos anos, a sede ‘histórica’ do partido, situada em frente à Igreja Matriz.

Nos primeiros anos viveu alguns momentos mais complicados, no que ao combate político diz respeito. Recorda-se de um confronto com elementos de partidos de esquerda, ocorrido perto do Hotel Globo, em que se chegou a vias de facto e, na mesma noite, de ter seguido para Faro para ajudar a gorar o ‘assalto’ ao Governo Civil, que estava a ocorrer.

Outro dos episódios mais graves dessa altura foi uma tentativa de incendiar a sede do partido, ocorrido durante a madrugada, numa altura em que ninguém lá estava. Passado o susto, verificou-se que, felizmente, os danos e prejuízos tinham sido de pouca monta.

Também no seio do próprio partido, em que com frequência havia desentendimentos entre várias fações, assistiu a discussões mais acaloradas e, inclusivamente, uma vez levou uma pedrada na mão, que lhe fez uma pequena cicatriz que lhe ficou para a vida.

Ilídio Martins afiança ter sempre tentado ficar à margem das ‘guerras’ internas, recusando, muitas vezes, lugares nos órgãos locais, sobretudo quando havia várias listas. Dizia que, quanto muito, “se acharem que faço falta, coloquem-me num dos últimos lugares da lista”.

A seriedade não compensa na política

Esse desprendimento trouxe-lhe surpresas aquando da constituição da equipa para a Junta de Freguesia, em que se viu na necessidade de dar frequentes justificações a elementos do seu partido que queriam ter um lugar mais relevante na lista.

Quando terminou o mandato recandidatou-se mas aí o PS já tinha aprendido a lição, fez campanha a sério e recuperou a autarquia. Ainda assim, Ilídio Martins manteve-se na Assembleia de Freguesia, agora como eleito da oposição.

O antigo autarca considera que serão essencialmente os muitos funcionários autárquicos que garantem que a Câmara nunca tenha conhecido outro poder que não o socialista, mas também atribui alguma culpa ao seu partido, por, em certas alturas críticas, não se ter unido e tomado as decisões que poderiam dar-lhe a vitória.

Mas também acha que, na política, “muitas vezes se é penalizado por dizer a verdade”. É isso que diz ter acontecido com Rui Rio, “um homem sério, que apoiei nas eleições internas e nas legislativas”, mas que terá sido prejudicado por não ter cedido à tentação de prometer aquilo que não sabia se poderia cumprir.

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Nasceu para o negócio

Para além da política e da família, a grande paixão de Ilídio Martins foi o empreendedorismo. Nasceu no Pechão, no concelho de Olhão, há 83 anos, e ainda jovem mudou-se de armas e bagagens para Lagos quando o pai recebeu um convite para trabalhar na gestão de uma fábrica de conserva que aí abriu.

Desde muito cedo sentiu crescer em si a vontade de trabalhar e ganhar dinheiro. Aos 14 anos, ao mesmo tempo que tirava o curso de comércio, começou a trabalhar no escritório de uma empresa.

Pelo meio teve de cumprir o serviço militar, o que atrapalhou um pouco os seus planos profissionais e empresariais, até porque foi chamado à tropa por duas vezes, a última das quais como militar em Angola.

Mas, tal como em praticamente todas as áreas da sua vida, considera que teve “sorte” durante os cerca de cinco anos em que envergou a farda, nunca tendo apanhado nenhum susto a valer, mesmo em terras africanas.

Depois de Lagos, a sua vida profissional mudou para a Mexilhoeira da Carregação e, mais tarde, instalou-se em Portimão, onde acabou por tornar-se numa espécie de substituto do dono, ao nível da gestão, numa empresa de pesca. Durante algum tempo exerceu também idênticas funções numa fábrica de conservas em Setúbal.

Paralelamente, começou a fazer uns biscates por conta própria, entre os quais o de vendedor de seguros e, com um amigo, entrou no negócio da preparação do apara-lápis, um peixe que começava a ganhar muito valor comercial por ser utilizado no fabrico de óleo e farinha.

O desaparecimento dos apara-lápis

O negócio estava a correr bem e, como há muito tempo que tinha vontade de singrar por conta própria, despediu-se da empresa em que trabalhava e acabou por se ligar, como acionista, a uma fábrica de Olhão.

Um dia foi chamado a uma reunião com o ministro das Pescas, que desafiou a sua empresa a comprar barcos exclusivamente destinados à pesca do apara-lápis, uma vez que entendia que o país tinha um défice grande ao nível da captura do cobiçado peixe.

Acabou por comprar duas embarcações e adaptá-las para a atividade pretendida. Mas nem tudo correu bem, pois eram precisas licenças e, entretanto, o Governo caiu e o novo ministro não parecia nutrir a mesma paixão pelos apara-lápis que o seu antecessor.

Para além disso, Ilídio Martins diz que houve uma espécie de boicote de pessoas ligadas a associações do setor, que temiam a concorrência.

Ao fim de quatro anos lá conseguiu a papelada necessária, mas com a condição de ter de pescar em águas marroquinas. Só que, entretanto, os apara-lápis resolveram ir a ‘banhos’ para outras paragens, pelo que a sua empresa teve de encostar os barcos e, mais tarde, de vender um e abater o outro.

Ao mesmo tempo que trabalhava na área da pesca, Ilídio Martins ia, também, investindo no negócio de peças de automóveis, tendo chegado a possuir três lojas e um armazém.

O negócio seguinte foi o da construção civil. Juntamente com um sócio, entrou “na altura certa”, quando aquele setor começou a ‘bombar’.

A sua forma de trabalhar consistia, em primeiro lugar, na compra de um terreno. Depois, pediam empréstimo aos bancos e avançavam com a construção de prédios com o máximo de oito andares, ignorando até os conselhos de gerentes bancários que mostravam disponibilidade para financiar empreendimentos maiores. Mas “nunca quisemos dar o passo maior que a perna e, assim, as coisas correram sempre bem”.

Quando fez 72 anos decidiu que estava na altura de se reformar e deixou o mundo dos negócios.

Olhando para trás, garante que gostou de tudo o que fez, inclusivamente, do facto de, ao longo da sua carreira empresarial, nunca ter tirado férias. E, sobretudo, adorou ser presidente de junta, o que lhe permitiu “ajudar as pessoas”.

Leia aqui a 1ª parte da reportagem: O único homem que conseguiu ‘roubar’ a Junta de Portimão ao PS

(Pode também ler a reportagem na edição impressa do Portimão Jornal ou online, aqui)

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