Política

João Graça: “O cigano que trabalha não gosta de ver o vizinho a ficar em casa e ir buscar um cheque ao fim do mês” (entrevista, 2ª parte, com vídeo)

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Segunda parte da entrevista ao candidato do Chega à presidência da Câmara de Portimão, onde se fala de estacionamento, habitação, imigração e comunidade cigana.

Leia aqui a 1ª parte da entrevista

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AM: No plano de trânsito e circulação de Portimão está a proposta de construção de uma nova travessia sobre o rio. Consigo como presidente isso seria uma prioridade?

JG: Não digo que seja uma prioridade imediata, temos que olhar primeiro para a habitação. Mais rapidamente iremos avançar para uma nova zona urbana para habitação social ou a custos controlados do que para a construção de uma nova travessia. Mas sei que está em cima da mesa e no futuro terá de ser feita porque a cidade está a crescer. Mas, com esta dívida, vai ser preciso fazer muitas contas e definir prioridades nos investimentos que vamos fazer.

AM: E ao nível do estacionamento, que ideias tem?

JG: Aquele estacionamento junto ao mercado poderá ser rentabilizado, poderá fazer-se um piso superior com um bonito jardim por cima…

AM: Está previsto o aumento desse estacionamento...

JG: Outra hipótese é fazer um subterrâneo e um jardim por cima, pois não vai ferir os prédios que estão à volta, pelo contrário, até vai embelezar a zona e responder às necessidades das pessoas, pois basta ouvir quem lá trabalha e os clientes para se constatar que a situação existente pode vir a fazer com que, os poucos, as pessoas comecem a ir lá menos.

Dou-lhe o exemplo de Lagos. O Mercado da Avenida perdeu muita da sua vida porque ali há pouco estacionamento e a pagar e o que acontece é que as pessoas estão a preferir ao outro mercado, o de Santo Amaro, por causa disso.

O Mercado de Portimão é bem movimentado, mas convém atuar nesta vertente.

Também na rua das Lojas é preciso fazer alguma coisa, vamos ter que levar para ali alguns serviços municipais ou até voltar a pôr as conservatórias.

AM: Está previsto que vão para o antigo edifício Al-Faghar.

JG: Sim, já soube, já me foram mostrar o edifício, mas não fica exatamente na rua das Lojas, as pessoas podem estacionar na Alameda, ir às conservatórias e depois ir à rua das Lojas já será mais difícil. Vamos ter ali também o problema do estacionamento, mas na zona não há quase forma de o solucionar.

Leia aqui a 1ª parte da entrevista

Necessidade de construção de grandes silos de estacionamento

AM: No que estacionamento diz respeito, há dois terrenos que não são propriamente parques, mas onde as pessoas deixam as suas viaturas. Um deles é aí próximo, na chamada Horta do Burro, entre o mercado e a alameda, e o outro nas traseiras da câmara. São terrenos privados mas que têm servido, na prática, como parques de estacionamento com capacidade para largas centenas de viaturas. Um dia destes, os respetivos proprietários podem construir ou vedar esses terrenos, o que será muito problemático. Tem algumas ideias para prevenir esta eventualidade?

JG: Temos que ver o que pertence ao município e a solução passará pela construção de grandes silos de estacionamento, se for possível, pois, devido à proximidade da água fazer parques subterrâneos será sempre mais complicado e caro. Outra possibilidade é chegar-se a qualquer tipo de entendimento com os donos desses terrenos que possibilite encontrar uma solução.

AM: Nos últimos anos, a câmara tem tido resultados positivos, todos os anos tem transitado uma verba creio que na ordem dos 20 milhões de euros. Se for eleito tenciona agarrar em muita dessa verba para suprir lacunas que existem na área da habitação?

JG: Sem dúvida. Habitação, saúde, segurança e educação são os primeiros pontos fortes do nosso programa e é nestas áreas que iremos fazer os maiores investimentos. A cidade precisa de se expandir, não cá dentro, pois já quase não há espaços para mais estacionamento, mas para fora, pensar na zona exterior da cidade.

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Leia aqui a 1ª parte da entrevista

AM: Mas não acha que, nesta vertente, tem de haver, desde logo, muito mais investimento do poder central, mas também alteração das regras ao nível dos preços? Há habitação a ser construída supostamente para famílias de rendimentos mais baixos e jovens casais, mas depois, vai-se a ver e o preço de venda dela é o de mercado ou pouco menos do que isso.

JG: Isso é um ponto muito importante, não podemos esquecer que faz parte da Constituição da República uma habitação condigna para todos e isso não acontece. Devia ser do Estado a garantir isso, mas não o fazendo, o município é determinante.

Tem de haver regras muito bem definidas. O que vemos hoje é que muitas casas que foram construídas a custos controlados são alojamentos locais e isso não pode acontecer. Aquelas casas serão para todo o sempre para habitação social ou a custos controlados para pessoas com menos posses e com reduzidos vencimentos. Essa é a prioridade.

“Devo ser dos políticos que melhor conhece o Algarve”

AM: O número 2 da sua lista foi há 4 anos o candidato à presidência da câmara. Tendo em conta o bom resultado conseguido, imagino que desejasse repetir a candidatura. Isso não causa atritos e problemas entre os dois, que podem pôr em causa a coesão do executivo municipal, caso ganhem as eleições?

JG: Não. Isto foi uma estratégia do partido, que tinha de fazer um ‘investimento’ forte. O nosso presidente pediu aos deputados para se disponibilizarem para serem candidatos autárquicos e, no Algarve, nas principais cidades, o partido tinha de dar um sinal forte. Tínhamos Olhão, Faro, Albufeira e Portimão numa primeira linha [para colocar os deputados]. Se eu fosse candidato noutro concelho, aí iria cair mais de ‘paraquedas’, embora, como presidente da Distrital, devo ser dos políticos que melhor conhece o nosso território, todas as freguesias deste nosso Algarve.

Ainda assim, quando analisámos essa questão, o melhor sítio até onde eu até me sentia mais capaz e mais à vontade, embora em qualquer um deles me pudesse encaixar, era Portimão e foi aqui que o partido decidiu que eu iria ser candidato.

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Disponibilidade para dialogar com outros partidos depois das eleições

AM: Os cabeças de lista foram, portanto, decididos por Lisboa. E a equipa que compõe as listas foi escolhida por si ou também foi decidida a nível central?

JG: A equipa fomos nós que decidimos, a meias com Lisboa. No partido há sempre um trabalho da concelhia, depois as equipas escolhidas são analisadas e aprovadas na Distrital e comunicadas a Lisboa, que aprova ou não. Normalmente, o que é proposto é aprovado, pois quem conhece melhor a região são as concelhias e a distrital, mas a estratégia do País é do nosso presidente e da direção nacional.

Leia aqui a 1ª parte da entrevista

AM: Imagine que ganha as eleições sem maioria absoluta ou é a coligação PSD/CDS/IL que as vence mas também sem maioria absoluta. É possível um entendimento pós eleitoral entre as duas forças políticas?

JG: Não haja a mínima dúvida que vamos eleger muita gente no Algarve e onde não ganharmos vamos ser o pêndulo da decisão. Quem ganhar vai querer conversar com o Chega.

Nós também, como sempre disse o nosso presidente, não antes, mas depois das eleições, estamos abertos a falar com todos e depois decidir, caso a caso, concelho a concelho, freguesia a freguesia, o que será melhor para o local e se o partido entende dever fazer com este ou com aquele algum tipo de acordo ou coligação de governação.

“Se calhar, vamos ganhar onde não se espera”

AM: Enquanto líder distrital, quais são as suas expectativas eleitorais no Algarve? Quais são os concelhos onde espera ganhar?

JG: Costumo dizer que, se calhar, vamos ganhar onde não se espera. Como sabe, as sondagens nunca são favoráveis ao Chega, ainda há dias me ligaram com os resultados, bons para mim, de uma sondagem em Portimão, mas prefiro uma má sondagem e depois uma boa surpresa do que uma boa sondagem e uma má surpresa. Nós não temos nenhuma câmara e, portanto, não será uma derrota se não ganharmos qualquer câmara no Algarve.

Mas vamos ter uma vitória pois há 4 anos elegemos 33 autarcas e não temos a mínima dúvida que agora vamos eleger centenas. Em seis anos, um partido conseguir fazer isto na região, vencer duas eleições seguidas, com diferença de um ano nas Legislativas e agora aumentar 3 ou 4 vezes o número de autarcas será sempre uma vitória.

AM: Os concelhos em que a aposta e as expectativas são maiores são aqueles onde candidataram deputados, não?

JG: A aposta do partido, em termos de investimento e de campanha, está a ser feita mediante a dimensão [dos concelhos]… o partido ainda é pequeno, já temos algum poder económico, vamos concorrer aos 308 concelhos do País e, portanto, o investimento na campanha e nos outdoors está a ser distribuído em função da dimensão de cada concelho, como é óbvio.

Pode-se realmente falar de uma aposta forte nos sítios onde temos os deputados, mas também não vamos descurar Loulé, Silves, que acho que vai ser uma das nossas surpresas, Lagos, que acho que também poderá ser uma boa surpresa, ou Vila Real de Sto. António.

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Leia aqui a 1ª parte da entrevista

Vai visitar casa de família cigana

AM: Há dois temas que são centrais no discurso político do Chega, os a imigração e da comunidade cigana. Caso seja eleito presidente da Câmara de Portimão, o que é que a esse nível poderá mudar no concelho?

JG: Em termos de imigração ilegal, como diz o nosso presidente, e todos nós a uma só voz: primeiro nós, depois os outros. Portugal precisa muito, o Algarve precisa ainda muito mais [de imigrantes], no turismo temos muita falta de recursos humanos, mas queremos saber quem vem, de onde vem e o que está cá a fazer, nisso seremos implacáveis.

Não vamos tirar direitos a ninguém, a mim não me interessa se a pessoa é cigana, africana, devem ter os mesmos direitos dos outros, mas também os mesmos deveres, todos temos de trabalhar para a economia, sabemos quais são os problemas da comunidade cigana… até lhe posso dizer que alguns deles costumam estar no mercado de Portimão e, no outro dia, uma dessas comunidades até me convidou a ir visitar a sua casa, dizem que têm lá problemas. Ainda não fui porque não tive oportunidade, mas vou com todo o gosto.

Como presidente da câmara vou ajudar aquela comunidade como outro bairro qualquer de um outro cidadão de Portimão. Agora, eles têm de saber que as regras são para cumprir, os deveres e os direito têm de ser iguais para toda a gente.

AM: Está a dizer que não é anti-imigração e anti-ciganos…

JG: Nem eu nem o partido.

AM: Mas às vezes vezes parece.

JG: Parece pelo nosso discurso forte. Posso contar-lhe um episódio que vivi há 4 anos, no mercado de Sagres. Era candidato à Câmara de Vila do Bispo e andava a distribuir flyers. Estava uma senhora cigana sentada numa cadeira, cheguei com um flyer para lhe dar e ela disse-me “menino, vá-se embora daqui, que é do Chega”.

Perguntei-lhe a que horas se tinha levantado para trabalhar e ela disse que foi às 5 da manhã. “Está a ver, sabe muito bem que tem pessoas da sua etnia que, a esta hora, 10 da manhã, estão deitadas e e no fim do mês vão buscar um cheque dos descontos do meu e do seu trabalho”, disse eu. Sabe o que ela fez? Arrancou-me m flyer da mão, como que a dizer que tinha razão.

O cigano que trabalha, que se levanta de manhã para ir trabalhar não gosta de ver o vizinho dele a ficar em casa e a ir buscar um cheque ao fim do mês. Pode dizer que é difícil alguém dar trabalho a um cigano, mas acho que já foi mais difícil. Eles também têm que se chegar um bocadinho [à frente].

Cada um de nós tem a sua religião, os seus costumes, o seu clube, o seu partido mas não nos podemos esquecer que vivemos numa sociedade que tem regras e elas não podem ser só para uns e não para os outros.

Leia aqui a 1ª parte da entrevista

Assista aqui ao vídeo:

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