Os segredos da história da Igreja Matriz de Portimão

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Segunda parte de uma entrevista a Nuno Campos Inácio, a propósito do lançamento do seu mais recente livro, “Igreja Matriz de Portimão – 550 Anos de História (1467-2017)”.

Leia aqui a 1ª parte da entrevista

Algarve Marafado (AM) – Em termos arquitectónicos, havia algo que individualizasse a Igreja Matriz de Portimão em relação às outras ou era uma igreja típica da época?

Nuno Campos Inácio (NCI) – Era uma igreja gótica. Teria a forma da cruz latina e a dimensão que tem actualmente, portanto, a área não sofreu alterações com os terramotos, houve alterações a nível arquitectónico, mas não do espaço ocupado.

Este é um dado interessante, porque podemos comparar a dimensão da Igreja Matriz de Portimão, uma terra alegadamente nova, fundada em 1463, com as igrejas de Alvor e de Estômbar que eram, na época, terras já com alguma dimensão e até com as de Lagos. Prova-se que era impossível que Portimão fosse uma terra que começava a nascer. Ela já tinha, de facto, uma núcleo urbano sólido sólido e até acredito que tivesse uma outra igreja mais pequena – uma capela, pelo menos – mais antiga e que esta tivesse sido feita no lugar da outra.

AM – Mas se em termos de área não houve alterações, o mesmo não acontece  ao nível arquitectónico. A Igreja que hoje vemos não tem praticamente nada a ver com a de então, julgo que, pelo menos, a seguir ao terramoto de 1755 terá sido praticamente reconstruída.

NCI – Quando se deu o terramoto de 1755 já a Igreja não estava a funcionar. No século XVIII houve, no Algarve, dois outros sismos quase tão devastadores como o de 1755, um teve epicentro ao largo de Portimão e fez cair a torre da Igreja e algumas abóbadas. E houve outro, salvo erro em 1732, que também provocou graves danos. Portanto, em 1755, a Igreja estava em obras de reconstrução. Por isso é que as pessoas que morreram no terramoto estavam na Igreja do Colégio, que era onde estava a ser celebrada a Missa de Todos os Santos e não na Igreja Matriz.

Em 1755, a Igreja não caiu totalmente com o terramoto. As paredes laterais são as originais, o pórtico é o mesmo, as imagens salvaram-se praticamente todas, as que tínhamos documentado como sendo do século XVIII ainda estão lá, o arquivo não se perdeu, o que quer dizer que a Igreja não ruiu completamente.

E dois dias depois do terramoto ainda foram sepultar pessoas no seu interior, o que indicia que o tecto também não caiu e que a Igreja não ficou entulhada. Não quer dizer com isto que não tivesse sofrido graves danos. Sofreu e foi recuperada com outro estilo completamente diferente, mas o imóvel, nessa altura, já se encontrava muito fragilizado pelos terramotos anteriores.

O que se mudou mais? O frontispício foi todo feito de novo, só mantiveram o pórtico, tendo a fachada sido construída de raiz e até usando como base as pedras tumulares que estavam  no interior da Igreja. A torre do sino foi toda feita de raiz e as capelas laterais que lhe davam a forma de cruz latina desapareceram e foram feitas as dependências que temos hoje da sacristia e da secretaria da Igreja.

AM – Para além destas, quais foram as outras principais fases ou momentos pelos quais a Igreja passou ao longo destes 5 séculos e meio?

NCI – A Igreja esteve sempre em obras ao longo destes 5 séculos e meio, motivadas, acima de tudo, pelos terramotos.

As pessoas ouvem falar do terramoto de 1755 e pensam que foi o único que abalou a terra aqui e não é verdade. Já no século XVI houve um grande sismo que devastou praticamente toda a cidade de Silves e provocou graves danos em Portimão. Logo a seguir encontramos registos dos tais impostos à população para recuperar a Igreja. À semelhança de outras, a Igreja Matriz de Portimão viveu sempre em obras em que quando se acabava uma determinada consolidação do monumento, vinha um sismo que a voltava a fragilizar e acabavam por ter de fazer novas obras.

AM – Em termos políticos, houve momentos em que o poder dominante era anticlerical ou muito próximo disso. De que forma essa circunstância teve influência na Igreja e na população religiosa de Portimão?

NCI – A primeira consequência foi com o Liberalismo, em que se deu a nacionalização dos bens da Igreja. Quem lê os livros do Tombo da Igreja (onde eram registados os seus bens) verifica que as pessoas deixavam em testamento determinados bens para o Igreja, tendo como contrapartida as missas. Fiz a transcrição dos dois livros do tombo que há na Igreja e estamos a falar de centenas de imóveis.

Todos esses imóveis foram nacionalizados e posteriormente a venda dos mesmos foi obrigatória. As confrarias foram obrigadas a vender todo esse património e a aplicar esse dinheiro em certificados de aforro, passando a viver dos juros dessa dívida pública. Isto levou, praticamente, à ruína da Igreja… mas estamos a falar ainda do século XIX, ainda encontrei registos de, em 1870, haver imóveis destes a serem vendidos.

Depois, em 1911, foi criado o Registo Civil e as igrejas foram obrigadas a entregar todos os livros de registos que tinham, os templos foram nacionalizados e já no período do Estado Novo é que o edifício voltou para a posse da Igreja enquanto instituição.

Em 1974 houve alguma perseguição à Igreja mas não tão forte e depois, aos poucos, foi-se consolidando a democracia e a total liberdade de opinião.

AM – Graças a este estudo trouxeste à luz alguns dados novos sobre a história da Igreja e, por arrastamento, de Portimão e do concelho. Relativamente a muitos outros monumentos que existem no Algarve, haverá a necessidade de se fazer idêntico estudo, haverá dados e informações que sobre eles foram sendo divulgados ao longo dos séculos que, afinal, não estarão correctos?

NCI – O que acontece é que andamos a guiar-nos por obras que foram escritas ainda no século XIX e temos que perceber que há documentos que nessa altura não estavam acessíveis, os historiadores não conseguiram ter acesso a eles, não havia digitalização, a investigação era feita exclusivamente com a consulta do papel…

Não podemos olhar para a história como uma ciência fechada. Quando digo que havia dados que estavam incorrectos, como o da fundação da Igreja,  não é crítica absolutamente nenhuma a quem o anunciou no passado, porque o fizeram com base nos documentos que tinham.

Agora quando surgem documentos novos que demonstram que essas informações não estão correctas não faz  sentido nenhum continuar a manter a ideia errada.

AM – A nível geral, achas que faz falta estudar com pormenor a história dos outros monumentos algarvios?

NCI – Claro, até porque não há monografias recentes de quase nenhum. Felizmente está a nascer uma nova geração de historiadores e investigadores que estão a dedicar-se novamente ao património e à história do Algarve. Não podemos partir do princípio que, a nível histórico, tudo estava fechado e tanto não estava que eu tenho-me dedicado a trazer uma série de factos novos e vou continuar a fazê-lo, estou a pensar em dar continuidade à história do condado e a publicar outros trabalhos com a sua história mais recente, um do século XVIII e outra do século XIX, que também vão trazer muita coisa inédita ao conhecimento geral.

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