Fuga ‘a salto’ para França para escapar à PIDE

(Segunda parte de uma reportagem originalmente publicada no Portimão Jornal, que pode ler na edição em papel ou online aqui. Pode ler a 1ª parte aqui)

Apesar de todos os cuidados que colocava na sua ação clandestina, a partir de certa altura, Rui Sacramento sentiu que a polícia política o vigiava e o cerco se apertava, pelo que era uma questão de tempo até ser preso. Antes que isso acontecesse, juntamente com mais três camaradas, acabou, em 1964, por fugir para França.

A primeira etapa da viagem teve início na estação de Estômbar, onde apanharam o comboio com destino ao norte do país. Saíram no Porto e daí seguiram viagem para Miranda do Douro, onde atravessaram a fronteira para Espanha, a ‘salto’, como então se dizia.

Pelo caminho apanharam um grande frio e inclusivamente neve, o que os levou a ter de procurar refúgio numa casa de cantoneiro, que não estava ocupada, onde fizeram uma fogueira para se aquecer.

Uma vez fora de Portugal, dirigiram-se para a cidade mais próxima, Zamora, novamente de comboio seguiram viagem, agora para San Sebastián, no país Basco, que se situava bem perto da fronteira que separa a Espanha da França.

Aí, ficou a trabalhar ao longo de dois meses, durante a semana, enquanto que os domingos eram ocupados a fazer operações de reconhecimento da fronteira, para tentar descobrir qual a melhor forma de a cruzar.

A solução acabou por lhe ser dada por um habitante local. Seguindo o seu conselho, uma manhã, com um saco às costas e uma pequena capa plástica que, ao longe, parecia ser um passaporte, meteu-se no meio de um grupo de trabalhadores que viviam do lado espanhol, mas que trabalhavam em França.

Como faziam diariamente o percurso, não eram alvo de grande controlo por parte dos guardas, pelo que conseguiu chegar ao seu destino sem ser abordado.

Na lista dos mais procurados

Aí chegado, as coisas foram relativamente fáceis, pois “ao fim de três dias arranjei logo emprego e fui tratar dos papéis para ficar legalizado”. Como falava francês, integrou-se sem grandes problemas num país que estava habituado a receber portugueses, muitos deles refugiados políticos.

Ao longo de 10 anos trabalhou, como controlador técnico, nas fábricas da Renault, onde, para não variar, organizou células do Partido Comunista. Tornou-se, igualmente, membro muito ativo da comunidade portuguesa que aí trabalhava, tendo fundado uma associação.

Mas, mesmo a milhares de quilómetros do país, sentia que a polícia política o vigiava. Essa convicção foi-lhe reforçada pelo facto de um dia “ter surpreendido um indivíduo a mexer na minha secretária. A desculpa que deu é que andava à procura de cigarros, quando eu nem sequer fumava”.

Mais tarde soube que fazia parte de uma lista dos 50 opositores políticos no exterior que eram os mais procurados pela PIDE. Ao lado da sua fotografia estavam as de personalidades bem conhecidas, como Manuel Alegre, Piteira Santos e Camilo Mortágua.

Ao longo dessa década de exílio arriscou vir a Portugal uma vez. Lembra que “entrei pela Mina de São Domingos, na zona de Mértola, montado num cavalo, atrás de um homem que andava no contrabando e que, por isso, conhecia as melhores formas de não ser apanhado pela GNR”.

(Segunda parte de uma reportagem originalmente publicada no Portimão Jornal, que pode ler na edição em papel ou online aqui)

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