A rota do peixe desde o mar até ao prato – Parte 1

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Reportagem originalmente publicada na edição nº6 do Portimão Jornal, que ser lida, na íntegra, aqui.

É durante a noite que se desenvolve o ‘dia’ de trabalho de Armando Francisco, no seu ‘escritório’, um pequeno barco de 9 metros, que divide com dois outros colegas de profissão.

Ao cruzar a porta de casa para ir à pesca de polvo procura, de imediato, com ansiedade, confirmar se o vento, que “é o maior inimigo dos pescadores,” não se faz sentir com grande intensidade. É que, quando ele sopra com força, a ondulação do mar é maior, o que aumenta o risco de quem anda naquele duro trabalho.

Um dos maiores sustos da longa vida que já leva a tentar enganar as ondas para trazer o sustento para terra deu-se exatamente numa altura em que se “levantou uma forte ventania e um mar de sudoeste que, às tantas, nos fez pensar que o barco ficava pelo caminho e não chegava a terra”. Se isso acontecesse, graceja, “a gente vinha a nado”.

A embarcação em que trabalha carrega mais de mil cofres, antigamente ‘artilhados’ com isco de caranguejo, o que, entretanto, foi proibido. Agora, ele e os seus colegas têm de usar pedaços de cavala ou sardinha, petiscos aparentemente menos do agrado dos polvos, lamenta.

Isso faz com que o barco tenha passado a vir mais leve da faina, o que tem consequências na remuneração mensal dos pescadores, pois “não temos salário fixo, recebemos em função do que pescamos”. No último mês, garante, “ganhei à volta de 800 euros” e desabafa que, “por esse valor mais vale ir trabalhar num supermercado, a repor produtos nas prateleiras”. É por essas e outras que já começa a pensar na reforma, depois de mais de 30 anos como pescador.

Uma ‘brincadeira’ que se tornou modo de vida

Começou a ir ao mar “por brincadeira e para ganhar mais uns cobres”. Na altura era nadador salvador durante o verão e resolveu ir para a pesca durante os outros meses, embora numa perspetiva de curto prazo, até arranjar outro emprego.

Foi ficando, mas mostra-se algo cansado, sobretudo porque “não dão valor ao trabalho dos pescadores”. Da sua parte tem feito o que é possível para ajudar a melhorar as condições de trabalho da classe, enquanto presidente da Associação de Pescadores de Alvor. Existente há cerca de década e meia, e a troco do pagamento de alguns euros por mês, aquela entidade disponibiliza aos sócios gelo, câmara frigorífica e uma carrinha que leva o peixe à Docapesca de Portimão.

Manter a atividade não é fácil, pois os custos são elevados. Todos os meses há que pagar aos dois funcionários, bem como “o aluguer dos espaços que temos e a eletricidade, que nos  custam os olhos da cara”. O que ajuda a compor o orçamento são os serviços que a associação presta a não-pescadores, em especial o aluguer do espaço para deixarem os barcos na pequena doca existente na zona e a utilização de uma grua para quando é necessário fazer a manutenção das embarcações.

Outro dos problemas que se queixa é da burocracia. De vez em quando “aparecem os governantes a falar em apoios, mas depois para os pescadores se candidatarem a qualquer centavo é preciso preencher tanta papelada que, normalmente, acabam por desistir”.

Armando Francisco mostra-se, igualmente, revoltado com as obras de desassoreamento que foram recentemente realizadas na ria de Alvor, pois “fizeram as dragagens onde não era preciso e não tiraram areia de onde era necessário”. Isso faz com que continue a haver zonas em que “ao mínimo descuido, os barcos ficam encalhados”, o que prejudica uma comunidade piscatória que, pelas suas contas, ainda deve envolver perto de uma centena de pessoas.

Reportagem originalmente publicada na edição nº6 do Portimão Jornal, que ser lida, na íntegra, aqui.

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