A surpresa de receber o crachá de Ouro dos Bombeiros

Leia a 1ª parte da reportagem: Margarida Costa – Uma mulher que fez o ‘estágio’ de bombeira ainda na barriga da mãe e a 2ª parte: Quase apanhada pelo incêndio

A profissão de bombeiro não tem horário certo, o que pode causar algumas perturbações na vida familiar. Felizmente, o seu marido, como também era ‘soldado da paz’, percebia perfeitamente as exigências da atividade.

Margarida Costa lembra que, “como havia períodos em que fazíamos turnos desencontrados, ficávamos vários dias sem, praticamente, nos vermos, pois quando ele estava a trabalhar, eu encontrava-me a descansar e quando ia para o quartel era ele que voltava para casa”.

Admite que o mais afetado pela profissão do casal tenha sido o filho, que nessas fases ficava na casa dos avós. Era frequente “sair do quartel diretamente para a casa dos meus pais para estar um bocadinho com ele e daí voltar para o serviço”. Nas férias, pai e mãe procuravam compensá-lo pelas muitas ausências registadas ao longo do resto do ano.

Ainda assim, o jovem não parece ter ficado ressentido ou magoado, uma vez que, também ele, embora por um curto período de tempo, experimentou a vida de bombeiro. Enquanto lá esteve, garante, nunca teve tratamento especial da parte da mãe, “tal como eu nunca tive do meu pai, que era chefe”.

Aliás, lembra, sempre que as coisas não corriam bem, era ela que ouvia as críticas mais fortes. Quando, mais tarde, se encontravam os dois a sós e ela se queixava do progenitor estar sempre a ‘dar-me na cabeça’, ele respondia que era para que os outros não pensassem que tinha tratamento especial por ser sua filha.

Quando entrou para a corporação portimonense, a esmagadora maioria dos bombeiros eram homens, podendo-se contar o número de mulheres pelos dedos de uma mão. No entanto, nunca sentiu ter sido discriminada, pelo contrário, “toda a gente me aceitou bem, sempre houve muito respeito por nós, mulheres. No fundo, éramos uma grande família, muito unida”.

Isto apesar de, em trabalhos que exigiam maior esforço físico, uma vez ou outra ter havido alguém a sugerir que ela devia ficar no quartel. Isso, confessa, “fazia-me ‘ir aos arames’, pois sabia que era mais qualificada e tinha mais formação do que muitos colegas, para além de que, geralmente, não é a força física ‘bruta’ que resolve as situações, é o jeito, o conhecimento e a experiência que se tem”.

A carreira ativa de Margarida Costa acabou precocemente, por motivos de saúde, tendo sido alvo, no final de 2019, na celebração de mais um aniversário dos Bombeiros Voluntários de Portimão, de uma homenagem pela sua dedicação à causa. Chamada ao palco, soube que ia ser promovida à categoria de chefe e ingressar no quadro de honra.

Tratou-se de um momento marcante, não só por ter diante de si todos os bombeiros locais e muitos convidados, mas por o ato ter contado com duas testemunhas muito especiais: o seu filho e o neto ainda bebé.

Cerca de um ano antes já tinha sido alvo de uma outra homenagem, esta no decorrer da sessão do Dia da Cidade de Portimão de 2018. Aí, juntamente, com outras pessoas e instituições, recebeu o agradecimento do município pelo apoio que deu no combate ao incêndio que, uns meses antes, tinha colocado muitas vidas e bens em risco.

No final da sua intervenção ficaria ainda mais emocionada, uma vez que lhe foi entregue o crachá de ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses, o galardão máximo que aquela entidade atribui. Essa emoção, recorda agora, deveu-se, em boa medida, “ao facto de ter sido uma completa surpresa, pois o comandante fez segredo e não me disse que iria receber o crachá”.

Olhando para trás, em jeito de balanço, Margarida Costa diz que “valeu muito a pena ter vindo para os bombeiros”. Com o que hoje sabe, a única mágoa que guarda é “não ter entrado na corporação ainda mais cedo”.

(Texto originalmente publicado no Portimão Jornal, que pode ler na versão impressa ou online aqui)

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