A construção que provocou a demolição da chaminé do Algarve Exportador

A memória do nosso passado é fundamental para a nossa identidade e para a preservação dos valores de um povo e de uma localidade como é o caso da cidade de Lagos.

E se esse passado é rico e abundante se olharmos para uma era mais distante, também o recente nos consegue enriquecer e acaba por nos enaltecer como comunidade por a sua memória ainda nos falar e, para as gerações mais maduras, continuar a fazer parte da sua história de vida. 

Desse passado recente faz parte a indústria conserveira que alimentou sucessivas gerações e que, em horas de ponta, levava ao seu encontro multidões que, com a força do seu trabalho, a alimentavam e levavam, por essa via, o nome de Lagos a paragens bem distantes.

Mas, por força de opções políticas, a economia do mar começou a definhar e arrastou no seu encalço a indústria conserveira que laborava e dava vida a muitas cidades. E entre elas contava-se a cidade de Lagos.

Com o seu definhamento, as fábricas começaram a fechar e a ruína a apoderar-se das suas instalações. Rapidamente, em seu lugar, começaram a surgir novas edificações sem, no entanto, se deixar de preservar a sua simbologia como eram essas chaminés erguidas no ar a alertar para o papel social, económico e cultural do que fora essa indústria de outras eras. 

Uma das de maior dimensão e que albergava no seu interior uma grande fatia da população era a do Algarve Exportador. Situada à entrada da cidade, via diariamente um corredor de lacobrigenses que para lá se dirigiam, que lá labutavam e que de lá partiam ao encontro do seu lar e, em dias de descanso, da cidade para passear. 

Um símbolo de Lagos

Mas apesar da sua dimensão e de uma das suas chaminés ser das de maior imponência, não houve o respeito por esse passado recente nem a sensibilidade de preservação de um dos símbolos da tradição conserveira da cidade de Lagos.

E, por esse facto, é aprovada uma urbanização de grandes dimensões, para o local, que levou à sua demolição. E assim a chaminé é destruída pelas máquinas da urbanização que, por força da sua aprovação, haviam conquistado autorização para derrubar a chaminé do Algarve Exportador.

Quando esse derrube foi consumado, muitas vozes se levantaram e muitas outras se indignaram com este atentado à nossa memória recente e à insensibilidade de quem, no presente, gere os destinos da cidade de Lagos. E se essa aprovação fere a nossa sensibilidade, a explicação, ao clamor que se levantou, acaba ainda mais por nos ferir e por agredir os nossos valores patrimoniais, paisagísticos e culturais.

Ao dizer-se, em reunião de Câmara e em jeito de desculpabilização, que a manutenção da chaminé do Algarve Exportador pressuporia um prejuízo de um milhão de euros, estava a tentar-se justificar o que foi aprovado e não o que deveria ser preservado. Uma urbanização, para ali, mesmo que questionável, teria sempre de integrar e destacar a chaminé do Algarve Exportador.

E no que diz respeito ao que foi aprovado, as dimensões daquela urbanização não são, de modo nenhum, apropriadas para uma localização como aquela. Se já é muito questionável a aprovação de uma urbanização numa zona de sapal, o problema acaba por se agravar quando atinge uma volumetria e uma altimetria como a que nos é dado ver. E, desta forma, a geografia da cidade não está a ser respeitada nem a sua harmonia está a ser preservada.

Mas não é apenas em torno da antiga Algarve Exportador que a construção é desproporcional e que os projetos nada têm a ver com a harmonia que a cidade requer. Também no espaço da antiga adega cooperativa a volumetria e altimetria são desproporcionais para aquele quarteirão. A desproporção em relação ao edifício da Câmara é evidente. E este deveria ser o edifício, em altimetria, de referência para toda aquela envolvente. 

Mas como, em aprovações, a casuística costuma imperar, deparamos com edifícios que começam a surgir e que nada têm a ver com o que em redor já é preexistente e, dessa forma, contribuem para uma cidade nada coerente. O caso mais chocante é o de um edifício no alto da Torraltinha que agrediu e abafou todos os edifícios da sua envolvente.

Enquanto este modus faciendi imperar, vamos assistindo a mais símbolos da nossa história a ser derrubados, a mais edifícios a surgir sem respeitar a envolvente e a uma cidade a crescer atabalhoadamente.

É fundamental que os planos diretores municipais e todos os documentos orientadores do nosso crescimento obedeçam a uma ideia de cidade que tenha em conta a sua história, o seu urbanismo multissecular, a sua paisagem e o seu ambiente.

Só assim teremos uma cidade com um rosto próprio e com essa identidade que a história nos legou.

(Opinião, Guedes de Oliveira)

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