Revista do Boa Esperança ‘invade’ o Algarve

pub

(Primeira parte de uma reportagem que também pode ser lida na edição impressa do Portimão Jornal ou online, aqui. Pode ler a segunda parte aqui)

A revista do Boa Esperança Atlético Clube Portimonense já está a levar a cabo uma digressão por vários pontos do Algarve.

O seu encenador e ator, Carlos Pacheco, diz que “já temos o mês de junho todo completo, começando pelo concelho vizinho de Lagoa, e também um elevado número de marcações para julho e agosto”.

Até ao final de maio, a equipa jogou em ‘casa’, ou seja, atuou na sua sede. A sala esteve esgotada em quase todas as sessões, “ultrapassando as nossas melhores expectativas”, garante o responsável máximo pela ‘Com a Corona aos Saltos’.

Carlos Pacheco confessa que, no início, teve algum receio em avançar com a revista e até propôs ao grupo que o acompanha que, para jogar pelo seguro, fizessem uma produção mais modesta, uma comédia, que exigiria custos bem menores.

A proposta foi a votos e “acabei por ser derrotada, todos os outros foram da opinião que devíamos voltar ao teatro de revista, que é o género de espetáculo que as pessoas mais apreciam, bateram o pé e convenceram-me”.

A sua maior preocupação era que o vírus da Covid-19, que ainda está bem ativo, obrigasse muita gente a desistir de ir ver a peça. E tinha alguma razão em estar apreensivo, pois a verdade é que, ao longo de quase dois meses de apresentações, houve vários cancelamentos por parte de pessoas que ficaram contaminadas.

No entanto, “como a procura por bilhetes é muito grande, conseguimos ultrapassar essa situação, ocupando esses lugares em todas as sessões”.

Ao contrário do que, eventualmente, se possa pensar, não são apenas os residentes em Portimão ou das localidades vizinhas que se deslocaram ao Boa Esperança. Uma parte considerável da assistência foi composta por pessoas de vários outros concelhos da região, até do Sotavento.

Foram muitos os adeptos da revista que decidiram tirar um dia – normalmente o domingo – para virem em excursão visitar Portimão e, durante duas horas, esquecerem as desgraças que afetam o mundo e darem umas ‘valentes’ gargalhadas.

É preciso saber ‘ler’ o público

Há cerca de quatro décadas que Carlos Pacheco anda metido nestas andanças e a experiência foi-lhe ensinando a ‘ler’ o público que tem pela frente, tarefa a que se dedica sobretudo ao longo dos primeiros minutos de cada sessão.

Com esse trabalho feito, e valendo-se da sua capacidade de improvisação e do restante elenco, consegue ir, em tempo real, “fazendo umas adaptações e alterações ao texto habitual, de forma a mais facilmente chegar ao público que temos pela frente, que é sempre diferente”.

Isso também vai acontecer ao longo da digressão, em que a equipa irá colocando umas ‘buchas’, em função da terra em que atuar e dos interesses e caraterísticas da população local.

A crítica social e política e as brincadeiras com pessoas bem conhecidas são dos elementos mais populares da revista. Isso tem o potencial risco de criar reações adversas por parte dos visados, mas, ao longo de quase uma vida em palco, têm sido poucas as vezes em que se deparou com situações mais sensíveis.

Fazendo um esforço de memória, Carlos Pacheco recorda uma rábula relativa a uma pessoa que usava peruca, uma informação que era do domínio público, mas que ela achava que não, e que se insurgiu contra o ‘quadro’ em que aparecia.

Outra situação resultou de uma brincadeira envolvendo o então presidente da Câmara, que terá ficado incomodado com algumas referências que sobre si teriam sido feitas. O problema é que, “como não tinha visto a revista, a informação que tinha foi-lhe dada por terceiros e não correspondia à realidade”. Um dia, Carlos Pacheco encontrou-o, disse-lhe em que consistia o texto e tudo ficou bem.

Da plateia para o palco

A ligação do atual ‘homem-forte’ do Boa Esperança com a coletividade e o teatro de revista começou quando ainda era miúdo. Sempre teve uma grande paixão pelo palco e aproveitava a sua condição de atleta do Boa Esperança para ir à sede espreitar os ensaios.

Em determinada altura, Ilídio Poucochinho – que era o responsável pelo grupo – apanhou-o a rir na plateia e para ‘castigá-lo’ mandou-o subir, desafiando-o a mostrar que conseguia fazer melhor que os atores amadores que se encontravam a preparar a peça.

O ‘puto’ saiu-se bem da experiência e, de imediato, o encenador lhe disse que “a partir daquela altura passava a fazer parte da revista” e nunca mais a abandonou.

Carlos Pacheco elege Ilídio Poucochinho como o seu grande mentor, não só por lhe ter dado a possibilidade de seguir a sua paixão, mas também “pelo muito que me ensinou”.

Sobretudo nos primeiros tempos, procurou absorver tudo o que de bom o elenco fazia e, para melhorar ainda mais a sua performance, “também tirei muitos cursos de representação, mas considero-me, sobretudo, um autodidata, é em cima dos palcos que se aprende a sério a chegar ao público e a entendê-lo”.

Depois de tantas tentativas, aperfeiçoou o “sentido de oportunidade, o timing para dizer o texto da forma certa, que é algo que não se consegue explicar, mas que é possível aprender”, pelo que, garante, “nesta altura já sei o que as pessoas querem”.

Às vezes, a técnica bem oleada acaba por ter efeitos surpreendentes. Em alturas em que atuam para pessoas mais idosas, “algumas delas, que já têm problemas de audição, pedem às outras para rirem mais baixinho, para que possam ouvir os atores”.

Em determinada altura, devido ao sucesso que tinha, alguns dos seus colegas davam como certo que Carlos Pacheco acabaria por, mais cedo ou mais tarde, rumar à capital para fazer carreira nas grandes companhias de teatro.

Ainda houve algumas hipóteses de isso acontecer, mas “o que me ofereciam não era suficiente para deixar a minha terra, a vida que já tinha aqui organizada e o meu público”.

Para além disso, percebeu que a vida de ator em Lisboa não é tão perfeita como por vezes parece, pois há muita concorrência, para se ter emprego é preciso aparecer nos locais e festas certas, adular as pessoas que têm poder e, “francamente, não tenho paciência para essas coisas”.

(Primeira parte de uma reportagem que também pode ser lida na edição impressa do Portimão Jornal ou online, aqui. Pode ler a segunda parte aqui)


OS NOSSOS VÍDEOS



OS NOSSOS VÍDEOS



OS NOSSOS VÍDEOS



OS NOSSOS VÍDEOS


LEIA TAMBÉM:

Boa Esperança: Do palco para o cinema

Ana Moura atua em Lagoa

Os grandes eventos de verão de Portimão

(Visited 164 times, 1 visits today)
pub
pub
pub
ViladoBispo_Banner_Fev
pub