Os segredos da ‘carreira’ musical de Mendes Bota

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Há quem diga que os políticos gostam de dar-nos música. Em sentido figurado, claro. Mas, no caso de Mendes Bota, essa afirmação pode até ser levada à letra, pois o antigo deputado algarvio tem vários discos gravados.

Segundo revelou na sua passagem pela Feira do Livro de Portimão, a sua paixão pela música vem de muito novo. Inclusivamente, construiu a sua própria guitarra, aos 13 anos de idade, porque “o meu pai não queria comprar-me uma e muito menos queria que eu andasse a tocar e a cantar”. Uns anos mais tarde, “lá arranjei uns tostões, comprei uma e comecei a tocar em vários grupos, com amigos”.

Deixou-se disso quando foi para Lisboa estudar, mas o ‘bichinho’ não morreu. Entretanto, meteu-se e foi subindo na política e quando se mudou para Bruxelas, como eurodeputado, levou a guitarra e “tocava para mim, nas horas vagas”. Um dia, o cantor guineense Fernando Carvalho, há muitos anos radicado no Algarve, como sabia que Mendes Bota escrevia poesia, começou a pedir-lhe um poema ou dois para musicar e editar.

Aquando do acordo de Bicesse, em Angola, promovido pelo então Ministro dos Negócios Estrangeiros Durão Barroso, “saiu-me espontâneamente, uma música, em ritmo merengue”, a que deu o título de “Abraço de Paz”. A letra “falava da descolonização, da paz, do não à guerra, de Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor”.

Gravou uma cassete e enviou-a a Fernando Carvalho, que daí a uns dias o contactou, convidando-o a gravarem a música juntos. Estava-se em 1991, nas vésperas de umas eleições que o PSD acabaria por vencer com maioria absoluta e em que Mendes Bota era cabeça-de-lista por Beja. Por isso, a sua primeira reacção foi dizer-lhe que não, argumentando que “o Cavaco mata-me”.

Mas como o amigo insistiu muito, acabou por pegar na cassete e ir à casa de Montechoro de Cavaco Silva. Entrou, “estava ele na piscina e a D. Maria ao lado, a abaná-lo, e ao ver o gravador perguntou: o que é que você traz aí, não me diga que é um discurso para a gente ouvir…”

Disse-lhe que não, fê-lo ouvir a música e, “para minha surpresa, ele gostou e disse que até era boa para o Governo, pois estava a celebrar a paz, de cujo processo tinha sido o intermediário”. Alertou-o para que alguns jornais iriam meter-se com ele, mas “se você quiser gravar, vá gravar”.

Obtida a bênção do chefe, foi mesmo gravar a música. Na Sexta-feira seguinte, o novo duo artístico apresentou-se na televisão, após o que Mendes Bota foi fazer campanha para Beja e “toda a gente me vinha pedir cassetes”.

Foi “um sucesso” tal que a editora logo o convidou para gravar um álbum em nome próprio. Disse que não, mas nas viagens de carro entre Bruxelas e Estrasburgo, começou a trautear e a construir algumas músicas e letras. Acabou por fazer “11 músicas em cinco línguas, com estilos completamente diferentes e gravou mesmo um álbum a que deu o nome de “Sem fronteiras”.

O disco “chegou a estar em 7º lugar no top nacional” e ainda lhe rendeu uma maquia interessante. “Na altura, no primeiro ano, recebi mil e tal contos de direitos de autor”, o que o surpreendeu e até o levou a desabafar que “isto pode ser uma carreira, ganho mais do que na minha actividade”.

Acontece que “aquilo tomou umas proporções tais que, a certa altura, o cantor estava a abafar o político e eu tive que tomar uma decisão”, até porque “havia uma certa imprensa que desvalorizava o facto de ser, ao mesmo tempo, político e cantor”.

Ainda gravou mais dois discos, embora de forma mais discreta, mas na prática, acabou assim uma ‘promissora’ carreira artística.

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